À esq., Patrícia em 91, na montagem Freud Levou Pau em Ginecologia; e, à dir., com Ciro Gomes: “Não é qualquer político, né? É um político tão interessante”
 


Você já foi obcecada com a idéia de ter filho? Não. Já tive vontade, mas veio e passou. Nunca foi uma coisa assim: “Ahhh, preciso”. Senão, eu teria tido. Mas o meu lado maternal vai muito bem. Cuido de muita gente. Às vezes penso: “Será que a maior experiência da vida eu não tive?”. Essa pergunta vai ficar para sempre, porque não vou ter.

Você teve câncer no seio e tem dito em entrevistas que as pessoas não te deixam esquecer esse assunto e que você não agüenta mais falar sobre isso. Vou te dar uma resposta rápida: eu não tenho nada para falar sobre isso. E não é para não lembrar. É porque eu acho que já falei tudo o que eu tinha que falar. Vou contar tudo de novo? Não tem mais novidade. Hoje compreendo quem não fala. Porque, se eu deixasse, as pessoas só me perguntariam isso e eu só falaria sobre esse assunto.

Chega a se arrepender por ter se exposto tanto na época? Não, porque sei dar limite e não fazer disso a minha vida. Agora, faz parte do meu processo parar de falar sobre isso, porque passou.

A Malu Mader disse em uma entrevista para a Tpm que depois de ter um tumor achou que tudo ia mudar, que não ia se preocupar com coisas bobas, mas que depois fica a mesma porcaria. Você concorda? Concordo. Fica tudo igualzinho. Ninguém se afasta da sua natureza. Claro que tem um aprendizado que fica. Mas não é uma coisa que te transforma. Acho só que fiquei mais atenta em relação à perda de tempo, às relações. Ficou mais claro para mim que a minha vida é resultado das minhas ações, mas isso veio com a psicanálise também, com a maturidade.

O que mais a maturidade te trouxe? O tempo faz com que naturalmente você tenha menos tempo a perder. A gente começa a tentar dar qualidade ao tempo que a gente tem. Acho que isso é fruto de uma certa experiência. Eu não perco mais tempo com coisas que antigamente perdia. Sabe aquelas coisas de ficar com raiva e ficar pensando [faz voz de perturbada]: “Não, porque aquilo que fizeram comigo, nossa, sei lá o quê”. Em geral não faz mais parte do meu repertório empacar com um assunto que não anda.

Você gosta da maturidade. Como lida com a parte física do envelhecimento? Acho que você tem que ter um lado que não se paute pela estética. Se você depositar sua felicidade em só uma coisa, está ferrado. Gosto de me cuidar, mas quero ter outras coisas na vida que me interessem e me mantenham curiosa. Claro que é bom se achar bonita. Mas me interesso por tanta coisa... Tem tanto lugar que quero conhecer, tantos amigos que eu queria estar mais perto. Ficar pensando só nisso é um desperdício. Eu tenho as perdas, como todo mundo. Mas aceitar isso é muito bom também e te tira um peso. Chega uma hora em que você pensa: “Todo mundo envelhece e eu também vou envelhecer. Não vou ficar assim para sempre. Pronto e acabou”. Isso também é tão libertador!

Você pensa em fazer plástica? Acho que plástica, se for feita com parcimônia, tudo bem. As coisas são difíceis. A perda da juventude, a perda do auge da beleza e da saúde. Depois de uma certa idade, você perde muita coisa, até as pessoas que ama. Como cada pessoa lida com essas perdas é problema dela. Eu posso fazer um dia. Mas espero que tenha a clareza de nunca querer voltar no tempo, porque, ficar querendo o que não tem, isso é muito chato.

As pessoas dizem que você está muito bem para a idade. Você não acha que falam mais isso para mulher do que para homem? Sim. E isso é de um machismo absoluto. É um machismo que os homens criam e as mulheres compram. A gente no Brasil ainda é muito machista. É impressionante.

O que você acha dessa obsessão que existe hoje pela imagem? Acho insuportável esse papo de beleza, de corpo, ando cansadíssima desse assunto. Quando acho alguém bonito, nunca é dentro desse padrão que é imposto. Uma pessoa é bonita para mim se ela consegue manter a minha atenção. Às vezes a pessoa é linda, uma princesa, e eu reconheço isso, mas em 30 segundos estou prestando atenção em outra coisa. Aí você vê uma pessoa fora do padrão como, por exemplo, a Amy Winehouse. E ela te pega. Porque ela tem uma estranheza, uma força, uma coisa que te mantém intrigada e te faz prestar atenção.

Durante as fotos, você comeu um pastel e disse que era louca por pastel de feira. Hoje muitas mulheres estão perdendo o prazer de comer por causa da culpa. Você já foi assim? Olha, se um dia eu deixar de comer um pastel é porque ou eu fiquei louca ou eu morri. Porque, gente, você não pode abrir mão do prazer na vida. Eu olho isso e fico pensando: “Que tirania! Que peso que as pessoas têm que carregar!”. E acho que o amor e o desejo não passam por nada disso. Claro que é legal se cuidar, nada contra. Mas esse peso é desnecessário. Não precisa de tudo isso.

Ser uma mulher bonita é bom ou já te trouxe algum problema? Quando eu era adolescente, era muito magra, sem jeito. Não sei se já passou muito tempo e eu esqueci. Mas não lembro de beleza ser um assunto tão fundamental como é hoje. Hoje deve ser muito sofrido. Você só poder ser aceito e amado se se encaixar dentro de um padrão do desejo? Isso é horrível. As pessoas perdem tanto tempo da vida pensando nisso.

Você parece ser muito calma. Sempre foi assim? Calma? Eu sou agitadíssima. Mas agora consigo ficar parada. Gosto de ficar sozinha e da minha companhia. Não sou do tipo de pessoa que se não tem gente por perto fica desesperada. Gosto de escolher o vinho que vou tomar, comprar um queijo. Mas não sou de luxo não, viu? Compro uma garrafa boa, compatível com a minha idade. Já tomei muito vinho de garrafão nessa vida [risos].


 
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