O que mudou na sua rotina com essas transformações? Quando homem teve uma época que eu me sentia muito só, então gostava de sair e ver gente. Tinha aquela ilusão: “Vou sair e encontrar a pessoa que vai me entender no mundo”. Mas enchi o saco. Então fiquei muito tempo isolada. Tinha amigos, mas não os procurava, não aprofundava minhas relações. Tudo pra esconder o que eu sentia. Sempre me senti um pária social, e agora mais ainda.

Como você conversou sobre essa mudança na universidade em que dá aulas? Apresentei o laudo médico [necessário para que a cirurgia possa ser realizada e Luciana possa trocar de nome legalmente], o reitor me deu os parabéns pela coragem e conversou com a diretoria. Eles tiraram uma das aulas, e estou usando um jaleco para esconder os seios. O professor que me indicou na faculdade não me cumprimenta mais e me excluiu de um grupo de pesquisa, ele disse que deveria tê-lo avisado antes.

Nos seus 1,78 metro e manequim 38, Luciana chama a atenção quando entra num restaurante. Os clientes olham curiosos, e ela faz que não liga. “Não quero que me notem, quero ser uma pessoa como qualquer outra. Sou uma pessoa como qualquer outra, só estou no corpo errado.”

Anda perfeitamente numa bota preta de salto agulha: “É que treino faz tempo”. Veste calça jeans e camiseta feminina. Os olhos, que no começo da conversa desviam sem parar do olhar da repórter, têm rímel e delineador levemente borrados, denunciando pouca experiência na arte do make-up. Minhas seguidas confusões na hora de usar o masculino ou feminino resultam num chute delicado por baixo da mesa: “Sou ela, não ele!”.
Qual foi a reação dos seus pais? Quando contei minha mãe chorou muito. Mas depois senti que ela estava tentando dizer “a culpa não é minha”. Pareceu estar mais preocupada com ela mesma. Meu pai me deu uma revista espírita sobre “as causas do homossexualismo”.Expliquei que não sou gay. Hoje sinto um apoio maior deles.

Luciana de unhas feitas e vestido novo; e, no café que sempre freqüenta, os funcionários passaram a chamá-la pelo nome feminino

Qual é a felicidade extrema para você? Hoje, a felicidade extrema é as pessoas me tomarem diretamente por mulher. Estava em um bar e um cara estava me olhando e começou a puxar conversa. Não tive nada com ele, mas gostei da situação.

Você tem medo de se arrepender? Sempre tive uma depressão profunda por causa disso. Quero acordar de manhã e ser a Luciana. Não ir a um clube de travesti, acordar e ter que sair como Luciano, pai de família. E outra, porque vou ser homem o resto da vida se posso viver como mulher um pedaço dela? Acho que todo mundo devia fazer isso... O mundo ia ser muito mais harmonioso, te garanto [risos].

* Luciano é um nome fictício.

 
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