Como era o sexo antes, como homem? Em alguns momentos, como no fim da adolescência, acho que tinha muito hormônio no sangue, mas nos últimos 15 anos transava bem mais para ser aceito. Sexo não é fundamental pra mim, já me realizei muito mais em uma troca de carinho com alguém do que no sexo propriamente dito. Sentia meu órgão sexual errado.

Você acha que agora, como mulher, sua vida sexual vai melhorar? Sempre me apaixonei por mulheres, mas fazer sexo na posição de homem não me agrada. Nunca me apaixonei por um cara, até tenho fantasias sexuais com homens. Não tenho ojeriza a penetração. Se uma mulher quiser me penetrar, tudo bem. Meu problema é meu corpo, minha posição na sociedade, minha identificação sexual. Nunca foi por quem eu me apaixonei.

Você já ficou com algum homem? Eu tentei, mas foi só sexo. Nada além de sexo... Gostei da sensação de estar na posição da mulher, isso me fez bem. Agora o cara em si não me disse absolutamente nada. Não senti aquela vontade de dormir abraçada com ele.

Como foi a primeira vez que você saiu de mulher? Em uma boate que eu gostava bastante, no exterior. Foi muito tenso porque eu estava com medo de ser motivo de piada ou gozação. No início da transformação, em São Paulo, só me vestia como mulher à noite. Aos poucos fui saindo durante o dia também, usando uma ou outra peça feminina, mas ficava constrangida. Agora é supernormal.

Em frente ao prédio de Luciana, Freddie Mercury arrasa no telão de um bar. De bigodinho e calça apertada. “We Are the Champions” é trilha sonora para alguém em busca de identidade.
No apartamento, meia dúzia de móveis, um sofá de dois lugares com um lençol branco por cima, cadeira de balanço, chão de taco e uma gata magrela chamada Gata. Um lar de alguém que parece nunca estar em casa. Nada puxa os olhos, a não ser a vista lá fora: um teco do Masp e a Paulista.
Durante todo esse tempo Luciana fez de tudo para não deixar escapar sequer um resquício de identidade – nem na sua casa, nem para as pessoas que a rodeavam. Mantinha um segredo, não fazia amigos pra não ser revelada. Carregou uma pendência que começa a aparecer no banheiro – o único lugar da casa que parece ter mais personalidade: maquiagens espalhadas, creme anti-rugas, brincos e secador de cabelo. Está tudo lá, tomando conta do espaço, como alguém que aos poucos vai se mostrando para o mundo e para si mesma.

Luciano na sua festinha de 1 ano com a mãe e os dois irmãos mais velhos

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