Tpm. Você é homem ou mulher?
Luciana. Eu me senti sempre mulher, aprendi a ser homem e agora estou
aprendendo a me comportar como mulher. Como você aprendeu desde
criança. Se você tivesse sido criada num mundo selvagem,
seria diferente. Mas não ia se sentir mais mulher ou menos
mulher por causa disso. Por exemplo, sempre odiei ter pêlos. Uma vez
não agüentava mais ter pêlos nas pernas, então depilei.
Daí mostrei pra minha namorada e ela ficou possessa, muito brava mesmo.
Ela odiou. Está vendo, ela queria um homem.
Quando você percebeu que era diferente? Lá pelos 8 anos. Lembro
a primeira vez que pensei: “Na verdade, eu sou uma menina”.
Na época, assisti a um filme em que as crianças podiam se transformar
em adultos. As meninas escolhiam ser mulheres
lindas e os meninos, homens fortes. Eu não me conformava
com os meninos perdendo aquela oportunidade de
se transformar em mulheres! E, antes de dormir, sempre
pedia a Deus para acordar menina.
E gostava de meninas? Ao mesmo tempo que me apaixonava, queria ser como
elas. Isso era bem confuso na minha cabeça. E pensava: “Quando
eu tiver 20 anos paro de pensar nisso”. Acontece que não
parei.
E se vestia como elas? Sempre que tinha chance usava roupas da minha mãe
ou das minhas primas. Minha mãe tinha uma loja de roupas, e eu
sonhava com o dia que ficaria presa lá dentro para poder
usar tudo. A primeira vez que comprei uma calcinha, por exemplo,
deve ter sido aos 14 anos. Foi ótimo, mas eu morria de
medo que as pessoas descobrissem.
O novo órgão sexual de Luciana custará R$ 22 mil, pagos
em duas vezes: a primeira em cash e a segunda com um cheque
pra 30 dias. (Em 2007, o Supremo Tribunal Federal suspendeu
decisão que obrigava o SUS a realizar a cirurgia gratuitamente.
Não existe plano de saúde que cubra
o procedimento.) Ela já gastou cerca de R$ 15 mil com seios, glúteos
e uma plástica no nariz. O cirurgião plástico
Jalma Jurado é quem dará à luz novamente Luciana,
como ela mesma acredita: “Como vou nascer de novo,
espero que minha mãe acompanhe a cirurgia”. Jurado,
70, mais de 500 transgenitalizações no currículo,
colaborou na criação de normas que autorizam
a cirurgia – que até 1997 ainda podia ser considerada
crime de mutilação (nesse ano, Trip acompanhou a primeira
operação legal de mudança de sexo
no Brasil). Em dois meses, Luciana estará liberada para
perder a virgindade pela segunda vez na vida – mas agora como
mulher.
Como assim?
Alexandre Saadeh, psiquiatra do HCMUSP, responsável pelo atendimento
a transexuais
e professor da PUC-SP, explica a transgenitalização, cirurgia
que transforma o pênis em vagina
Tpm. O que é ser transexual?
Alexandre Saadeh. Uma coisa é a identidade sexual – se saber homem
ou mulher – e outra é o desejo direcionado para um homem
ou para uma mulher. Seu desejo independe da sua identidade sexual. O transexualismo é uma
questão de identidade sexual, de você não ser o que
seu corpo diz que você é. Uma idéia de “eu nasci
errado, esse corpo não me pertence”.
Depois da cirurgia, o transexual vai ter mesmo um novo sexo? No papel
social, sim. Mas é um processo pra vida inteira. Vai estar mais tranqüilo
com o corpo. A cirurgia é importante, mas não é solução,
não é resolutiva.
E o fato de Luciana sempre ter tido relacionamentos com mulheres
e mesmo assim optar pela cirurgia? Isso é uma coisa rara aqui no Brasil.
Nos Estados Unidos e Europa, os casos de trans-homossexuais – aqueles
que mesmo depois da transformação vão buscar alguém
do mesmo gênero – são mais comuns. As pessoas não
entendem por que ele vai buscar a transformação física
se gosta de mulher, acham que tem que continuar como está. Mas, como
já disse, uma coisa é a identidade sexual e outra é o
desejo direcionado para um homem ou para uma mulher.
Como é a cirurgia? É uma técnica teoricamente simples:
você esvazia o pênis e o inverte, põe o pênis pra
dentro. Então não é arrancar o pênis, mas transformá-lo
em uma vagina. Depois que os pêlos nascem, a vagina fica muito próxima
de uma verdadeira. Como as glândulas da uretra são preservadas,
elas continuam secretando o líquido lubrificante. Então
na penetração pode existir prazer e até lubrificação. |
|
|