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Não se deixe enganar pelo vestido, bolsa e cabelo comprido. Este
cara que você vê atravessando a rua é o Luciano*. Ele é professor
numa das mais respeitadas universidades de São Paulo. Fez doutorado
no exterior, mestrado e pós-doutorado no Brasil. Apresentou pesquisa
em Cambridge, na Inglaterra. E foi por mulheres que sempre se apaixonou.
Com uma delas perdeu a virgindade aos 17 anos: “Conheci uma mulher num
restaurante e fui agarrado por ela”. Aos 40, porém, idade
em que – no geral – se alcança certa estabilidade, ele mudou
de idéia.“Tenho uma condição chamada transexualismo
e, ano passado, depois de muita análise, resolvi
que era hora de encarar quem eu sou – e o mundo.” Luciano decidiu:
vai transformar seu pênis em uma vagina, em junho.
Não, ele não é gay nem travesti. Ele é mulher,
mas nasceu no corpo errado [leia box]. O que não quer dizer que agora
vá se desinteressar por vaginas alheias. “Vão
dizer que sou lésbica, porque sempre me apaixonei por mulheres,
mas tudo bem. E, se eu me apaixonar por um cara, tudo bem também. Não
amo um pau e não odeio um pau.” É como se Luciano tivesse
certeza – e ele tem – de que é uma mulher, mas quando
olha para o seu corpo depara com pêlos, pênis e barba. Agora
ele está aprendendo a se comportar como mulher: levou um susto
quando acordou, depois de uma cirurgia plástica, com um par de
peitos sobre seu corpo, está treinando o timbre de sua voz
e acredita que na pré-injeção de hormônio – que
toma a cada dez dias – sinta uma irritação semelhante à TPM. |
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Prazer, eu sou Luciano(a)
Conheci Luciano há cinco anos, em uma cafeteria de São Paulo.
Estava lendo jornal quando um homem loiro, alto, bonito e com a barba por fazer
me pediu um caderno emprestado. Não viramos amigos, mas, vez por outra,
no mesmo café, nos encontrávamos, falávamos da vida. Ou
melhor, eu falava. Luciano era excepcionalmente tímido. Eu até me
perguntava: “Será que esse cara é só simpático
ou ele está me cantando?!”. Então, no dia da entrevista
que você lerá a seguir, perguntei na lata: “Naquela época
você estava me cantando?”. E ele, com um decote de deixar
qualquer peituda de nascença no chinelo, respondeu: “Mas é claro
que estava! Fiquei na minha depois que você me disse a sua idade”.
Eu não chegava aos 20, e Luciano estava na casa dos 35.
Depois de um tempo sem vê-lo, no ano passado o encontrei por acaso caminhando
pela avenida Paulista. Bem mais magro, sobrancelha feita, cabelo
na altura do ombro e “peitinhos de adolescente”, como ele mesmo
disse. Até que um dia recebi um e-mail em que ele dizia que estava tomando
hormônios, passando por um processo de mudança de sexo.
Como agora ele já tem peitos tamanho 44, glúteos e nariz novos,
mudemos o gênero, assim como Luciana também já reeducou
sua gramática. Ainda que se atrapalhe um pouco para usar “o” ou “a” quando
fala da época em que era um menino e um homem “de barba bonita”,
como dizia sua avó.
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