Ela inaugurou vôos da Varig, como o Porto Alegre – Nova York, há mais de meio século. Hoje, pede por gentileza que a reportagem da Tpm mande por e-mail as perguntas desta entrevista – mas avisa que só entra no computador à meia-noite, “por questões econômicas, eu não tenho banda larga”. Assim como Conceição, Izabel e Lúcia, ex-comissárias e personagens da reportagem “Asas da Liberdade” (Tpm # 75), Alice Editha Klausz, ou Tia Alice, que completa 80 anos este mês, nunca cogitou ser dona de casa, ocupação da maioria das mulheres de sua geração. Mas ao contrário das colegas de profissão, a “aerovelha” - como ela mesma se define –, não parou de voar. Nem pretende.
Prestes a se aposentar depois de 35 anos de casa (ela ingressou na carreira aos 26 anos, em 1954), Alice estava se despedindo de um gerente da Varig, quando viu, na parede de sua sala, uma foto da estação de pesquisa brasileira na Antártica (a Estação Antártica Comandante Ferraz). “Você foi para lá?”, perguntou. “Não. Cruz credo!”, soltou o colega. Naquela época, a companhia aérea colaborava com o programa Antártico Brasileiro, fornecendo gratuitamente lanches para os participantes das missões comerem a bordo, o que justificava aquela imagem com dedicatória. Diante do silêncio de Alice, o tal colega desconfiou: “Por quê? Você gostaria de ir?”.
Foi assim que, alguns meses depois, a ex-aeromoça participou, como convidada, de um dos cerca de sete vôos anuais da FAB – Força Aérea Brasileira – à Antártica. A rota até hoje é feita num Hércules C-130, avião de carga adaptado para o transporte de militares, pesquisadores, alpinistas e, eventualmente, visitantes como Alice. Ela sabia que não teria conforto naqueles bancos laterais duros, que acompanham a estrutura interna do avião. Pelo menos estava segura de que comeria bem, afinal, conhecia os lanches da Varig como a cozinha de sua casa. Mas passaram-se horas sem que ninguém lembrasse das refeições. “Foi minha maior decepção. O avião estava cheio de caixas e bagagens e, em uma das caixas, tinham uns lanchinhos mesmo”, diz, com ênfase no “inhos”. Nada além de torradas, manteiga e geléia.
Revolução dos lanches
Aquilo não poderia ficar assim. E não ficou. Na volta, ela propôs ao presidente da Varig a introdução de um serviço de bordo adequado à missão e ganhou carta branca para colocá-lo em prática. Solicitou, então, ao subsecretário do Proantar (Programa Antártico Brasileiro), 10 taifeiros da Marinha e 10 da FAB para treinar. “Até hoje eles não me deram ninguém. Preferem me convidar”.
Isso faz 19 anos. E desde então Alice aceitou 141 convites. A bordo, trabalha como voluntária, calculando as quantidades de almoços e lanches. O cardápio inclui esfirra, quiche, chocolate e chá, entre outros. Em terra, mora sozinha no Rio de Janeiro, onde chegou em 1967. Nos cinco primeiros anos como “aerovelha”, até os hotéis e refeições eram por sua conta. Hoje, essas despesas são cobertas pela Marinha, e Alice vive do INSS. Ela perdeu a aposentadoria por causa da dívida da Varig ao fundo de pensão Aerus. “Mal dá para pagar o plano de saúde. Vendi o que podia e aperto o cinto”, brinca. Mas nem pensa em estacionar. “Gosto do relacionamento com as pessoas, de conhecer lugares, como o Chile [a cidade chilena Punta Arena é escala da rota Rio de Janeiro – Antártica], que é fantástico. Além disso, nesses 54 anos, já voei com os presidentes Juscelino [Kubitschek, 1956 - 1961], Jango [João Goulart, 1961 - 1964], Costa e Silva [General Artur da Costa e Silva, 1967 - 1969] e agora, com o Lula”, diz ela, em solo há uma semana.
Sobre o atendimento das companhias aéreas de hoje, ela é direta. “É um desastre. É tudo assim: 'Vai querer? Vai querer?' Me oferecem três barrinhas de cereal, mas não posso aceitar as três. Tenho que escolher coco, banana ou outro sabor”. Alice, que também é formada em biblioteconomia e direito, conversou com a Tpm por telefone. “Estou até agora esperando o e-mail de vocês”, disse, assim que nos atendeu pela segunda vez em dois dias. Explicamos que, de fato, não mandamos, pois preferimos falar ao vivo. “Ah bom, achei que o computador estivesse mal”, diz a senhora, que não se abala com o calendário. |