Livre não só para voar
Não foi apenas maquiagem e uniforme que mudaram nos últimos 40
anos. Quando Conceição entrou na aviação,
em 1968, ser comissária era ter uma liberdade rara para as mulheres
da época. O psiquiatra Luiz Alberto Py, analista didata da Sociedade
Brasileira de Psicanálise, acredita que essa é uma das razões
para as profissionais sempre terem povoado o imaginário masculino. “Eu
mesmo tinha fetiche por aquelas mulheres independentes. Numa época em
que a maioria ficava virgem até casar, as aeromoças se davam
ao luxo de não dar satisfação a ninguém.” Não é de
estranhar que os homens se incomodassem que suas filhas ou esposas escolhessem
a profissão. “Meu pai achava maluquice, mas depois que
comecei a trabalhar ficou orgulhoso”, conta Conceição,
que foi promovida a chefe das comissárias em três anos. Casou-se
em 1978 e, em 1982, largou o trabalho para curtir o filho de 2 anos.
Lúcia Lopes, 66, entrou na Vasp em 1962 e ficou dez anos. De lá,
foi para a Transbrasil e se aposentou em 1996, ao atingir a idade máxima
permitida: 55 anos. Nascida no interior da Bahia, ela deixou a família
para se aventurar em São Paulo. Foi morar num pensionato, onde conheceu
uma aeromoça com quem ia ao aeroporto ver os aviões pousarem
e decolarem todo domingo. “Era um programa comum na época”,
lembra ela, que foi convencida pela amiga a tentar a carreira de comissária. “Eu
achava que era uma coisa inatingível, mas, quando vi, tinha sido
aprovada na seleção”, conta. Foi entre um aeroporto e outro
que se envolveu com um comandante e engravidou. “Ele não quis
assumir o filho, mas realizei o grande sonho de ser mãe”, diz,
enquanto segura a foto que Thiago, hoje com 29 anos, mandou da Austrália,
onde mora há três.
Muito se fantasia sobre romances nos bastidores da profissão, como o
vivido por Lúcia. As ex-comissárias confirmam que viajar
com uma tripulação jovem, que pernoita em hotéis
do mundo todo, cria um clima propício para segundas intenções.
Elas acompanharam até casamentos entre colegas de trabalho. Mas garantem
não conhecer aeromoças que se comportavam como garotas de
programa. “Deve ter, você ouve falar, vê a pessoa chegando
cansada no dia seguinte ou nem aparece para trabalhar. Mas não
vi de perto ninguém fazer isso”, diz Izabel Morishito, 57,
ex-comissária da Varig e da Transbrasil – onde foi da equipe
de Conceição –, que se aposentou em 2001. Ela reforça
repetidas vezes que é bem casada há 30 anos, e que
isso é uma exceção no meio. “Meu marido sempre
me apoiou. Seus amigos e familiares perguntavam: ‘Não dá pra
ela largar o emprego?’, mas ele sabia que eu estava feliz”,
conta ela, que incluía o companheiro e os dois filhos em viagens à Europa.
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