Topa tudo por dinheiro
A mineira Ana Paula nunca tinha visto uma aeronave de perto até ingressar
na profissão. E acredita que a carreira não é para
qualquer um: “Tem que ser adaptável a pessoas, a climas diferentes,
a situações de estresse. A gente imagina que coloca
aquela roupa e sai pra passear, mas é muito mais que isso”, diz,
há sete anos no ar.
A convicção e o idealismo de Ana Paula são exceção
nos dias de hoje. Patrícia Kreusburg, 31, nasceu em Porto Alegre
e estudou turismo porque gostava de viajar. Na faculdade, conheceu pessoas
que pensavam como ela. “Queríamos ganhar dinheiro e conhecer
o mundo. Que profissão permitiria isso?” No primeiro semestre,
virou comissária da Vasp, onde trabalhou sete meses. Mudar para
o Rio, para ingressar na Varig, foi um atrativo. Patrícia ficou na profissão
dez anos, até a empresa entrar na crise de 2006 que culminou na
demissão de mais da metade dos funcionários. Sem
saber quando receberia seus direitos, ela aceitou posar nua
na revista Playboy. “Com a grana vou pagar meu mestrado.”
À moda da casa
Enquanto aguardava Teresa Rodrigues, coordenadora da Eacon (Escola
de Aviação Congonhas), a reportagem da Tpm ouviu a conversa de
dois recém-formados pela instituição. O tema eram
empresas que viajam o mundo. A garota, com cerca de 25 anos e um currículo
que incluía espanhol fluente, ensaiava uma entrevista de emprego: “Me
identifico com a filosofia da companhia”, soltava entre outros clichês.
O colega, de 19 anos, a interrompeu para lembrar a importância de
destacar o “prazer em servir”. Em dez minutos, a aspirante a aeromoça
não concluiu uma frase – em português ou espanhol – sem
gaguejar. E chegou a vez de a nossa equipe falar com a coordenadora
Teresa. “Antigamente, a mulher tinha que ser magra e elegante.
Hoje, os jovens estão ligados à praticidade, ao fácil.
De certa forma, a mulher perdeu a feminilidade. Muitas chegam aqui e sentam
sem cruzar as pernas”, diz, em voz baixa, a professora de etiqueta.
Desde os tempos de Conceição, as comissárias são
orientadas a usar maquiagem combinando com o uniforme. Hoje, as companhias
preferem cores discretas – na Gol, batom vermelho nem pensar.
Antes era comum vê-las de sombra verde ou azul, dependendo das invenções
do estilista Amalfi, que por 12 anos desenhou modelitos para Varig, TAM,
Vasp e, por 14 anos, para a Transbrasil. Foi ele o criador do turbante,
da calça pantalona e da jaqueta de zíper, nos anos 80. A moda
de ter as peças assinadas por nomes de peso voltou recentemente.
Gloria Coelho está por trás da Gol desde 2001, Christian
Lacroix desenhou os uniformes para a Air France em 2005 e, há um ano
e meio, a clássica Marie Toscano foi procurada pela TAM. “A
orientação era recuperar o glamour, a sofisticação,
mas com um toque de modernidade”, diz Marie, responsável
também pela substituição do coque com redinha
por rabos-de-cavalo e tranças.
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