Conceição, 23, usava vestido acima do joelho, luvas e salto sete
com detalhes de seda. A passos firmes, atravessava o salão
sem reparar nos homens de paletó nem nos longos das damas que os acompanhavam.
Para essas pessoas, minoria brasileira com alto poder aquisitivo, aquele era
um grande evento, e Conceição Alves, também
conhecida por comissária Ciça, era a “anfitriã do
ar”.
A cena fazia parte de sua rotina e lhe rendia, além do salário
que hoje seria o equivalente a R$ 4 mil, a imagem de independência
e poder. Em plenos anos 60, Conceição fazia expediente
num escritório voador, era desejada por homens de todos os
tipos e não tinha dia ou hora para voltar para casa. Naquela manhã,
partiria de São Paulo às nove rumo ao Rio de Janeiro, com
15 poltronas ocupadas no total das 69 existentes no Bac 1-11, o avião
mais popular da Transbrasil na época. A chegada seria às
11 horas e aquele era o primeiro dos dois vôos diários da companhia
ao destino. Conceição tinha duas horas para aprontar unhas,
cabelo, maquiagem e cílios postiços no salão do aeroporto
(onde tinha conta mensal) e se apresentar à chefia 45 minutos
antes da partida. A bordo, o sorriso era tão obrigatório quanto
o laquê domando seus fios loiros. E a aeromoça pronunciava as
ainda pouco difundidas palavras de gentileza que eram suas por função.
Quarenta anos depois, Ana Paula, 31, repete praticamente o mesmo discurso ao
embarcar no Boeing 737-800 da Gol – “a frota mais moderna do Brasil”,
como “marqueteia” o texto – em troca de um salário
estimado em R$ 2.500. Em seguida, faz o mesmo em inglês, ela é do
século da globalização. Por isso, veste a blusa branca
e laranja do uniforme, assinado pela estilista Gloria Coelho, e tem o
cabelo solto nos ombros, sem deixar dúvida da imagem de modernidade
e praticidade que a empresa em que trabalha quer passar. A maquiagem
ela mesma faz antes de sair de casa. A ordem ainda é se apresentar com
45 minutos de antecedência da partida, num dos 15 vôos diários
da companhia ao Rio.A rota dura menos de uma hora. Isso, claro,
sem contar com excesso de aeronaves nos estacionamentos, problemas
com os controladores de vôo ou variações do famoso
caos aéreo. O aeroporto de Congonhas (São Paulo), que nos tempos
de Conceição era ponto de encontro de jovens em madrugadas
pós-festas, sede de bailes de Carnaval e abrigava apenas 20%
das pessoas que transitam por lá hoje, chegou a receber 18 milhões
de “visitas” em 2006.
A bordo, o sorriso de Ana Paula não é opcional, mas
vai e vem na velocidade com que os 162 passageiros se atropelam para
localizar seus lugares. Com sapatos ou Havaianas,
malas de couro ou mochilas furadas, a maioria sabe de cor as orientações
para desligar os celulares, não fumar e que “em caso
de despressurização, máscaras de oxigênio cairão...”.
Ninguém dá bola às boas-vindas de Ana Paula, a anfitriã de
um dia comum na vida de executivos, artistas, empresários ou gente
que parcelou a passagem a perder de vista.
Ana Paula de Oliveira é da geração de mulheres que não
precisa de dom para trabalhar fora. E de uma geração de
comissárias mais interessadas em unir o útil (ganhar
dinheiro) ao agradável (viajar) do que na devoção à arte
de servir com elegância e sensua-lidade – características
que inspiraram Conceição, hoje com 62 anos. Ana Paula é do
tempo em que meninas sonham ser modelo ou “celebridade”. Da década
em que até na hora do almoço os pratos servidos no avião
foram substituídos por barrinhas de cereal. “Banana ou coco?” é a
pergunta que mais se ouve a bordo. “Na minha época, oferecíamos
entradas, carne e até caviar”, lembra Conceição.
Voar deixou de ser evento e se tornou hábito. Com a maior demanda – ou
para atraí-la – os preços baixaram e as promoções
e opções de pagamento aumentaram. O resultado é o
serviço de bordo fast-food que se conhece atualmente.
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