Caso, mas não durmo
Ano que vem, Fabiana, 29, há três anos em Londres, vai se casar duas vezes – no papel, com um italiano e, na prática, com um brasileiro. O brasileiro é seu namorado. Conheceram-se em Londres – onde os dois trabalham como motoqueiros – e, coincidência ou destino, descobriram que eram do mesmo bairro de Goiânia. Acontece que, pra se casar com o brasileiro, ela precisa se unir, primeiro, com o italiano. Que na verdade não é bem italiano, tem ascendência. “Já comprei todo tipo de documento aqui, mas agora vou comprar uma coisa original, um casamento”, explica.
O tal descendente mora no Brasil, deu entrada na documentação de dupla nacionalidade, mas não tem dinheiro para agilizar o processo direto da Itália. Já Fabiana tem dinheiro, mas, ora bolas, não tem a ascendência. Ela fará uma procuração para sua irmã oficializar a união com o noivo arranjado, no Brasil. O casamento sairá exatamente £ 5 mil – o equivalente a
R$ 20 mil. Seu namorado, assim como ela, também vai se casar com uma quase italiana. “A gente vai casar no papel, mas nada de dormir junto”, deixa claro. “Só vou poder casar com o meu namorado verdadeiro daqui a três anos, depois que eu me separar do italiano sem o risco de perder o passaporte.”
Ela quer permanecer na Europa por mais sete anos, o que significa recomeçar uma vida ao lado do filho que ficou no Brasil perto dos 40. “Se eu soubesse o quanto sofreria aqui de saudades e de tanto trabalhar, nunca teria vindo. Mas, agora que já vim, preciso construir alguma coisa.” Com o casamento arranjado, ela poderá entrar e sair da Inglaterra quando quiser, além de se desfazer das identidades falsas. “Quero ser legal aqui, cansei de correr de polícia. Sonho em poder dizer na rua que sou brasileira e, assim, viver de verdade.”
Jeitinho brasileiro
Na cidade onde tudo parece comprável, de passaporte a carteira de motorista, uma espécie de traficante brasileiro de documentos ilegais revela o preço de um de seus produtos. O sotaque é mineiro e o sujeito tem apelido de inseto. Ele garante, ao telefone, que uma carteira de motorista válida em toda a União Européia, a Driving License, não sai por mais de £ 80, cerca de R$ 320. E Fabiana dá o passo-a-passo: “A gente liga pro cara, e normalmente o celular está desligado. Deixa um recado, ele retorna e você diz o que quer: uma identidade portuguesa, italiana ou uma carteira de motorista européia”. Coisa simples.
Um recente estudo realizado pela Queen Mary University of London, especificamente sobre brasileiros em Londres, revela que 53% dos vistos concedidos já estão vencidos. Segundo dados oficiais, cerca de 160 mil brasileiros habitam o Reino Unido. Em contraponto, estimativas vindas do estudo citado indicam o mesmo número só em Londres – entre legais e ilegais.
Dá trabalho achar um caminho para a legalidade quando não se tem um motivo justificável para permanecer num país que não o de origem. A maioria dos brasileiros não é estudante, tampouco turista, só quer é ganhar dinheiro. Então acaba sendo mais fácil ir na onda dos documentos tabajara. “Um possível caminho seria mesmo a entrada como estudante”, explica Karina Spooner, presidente da Oi Londres, empresa com sede na Inglaterra que auxilia brasileiros nas questões de imigração. “O problema é que, nesse caso, é permitido trabalhar apenas quatro horas diárias e por dois anos, no máximo. E, se o visto expirar, o imigrante corre o risco de ser preso e, em seguida, mandado de volta a terras brasileiras.” |