Estamos falando de papéis. Hoje os papéis estão confusos nas relações. Por exemplo: quantas vezes nos ofendemos se o cara quer pagar a conta e, ao mesmo tempo, cobramos uma postura de cavalheiro em outra situação? Acho lindo isso nas mulheres,
essa coisa confusa que a gente é.
O homem que tem humor para olhar para
isso é bacana.
De onde veio a idéia para o filme O Signo
da Cidade? Queria contar várias histórias,
com muita gente e muitos temas. Entre
outras coisas, queria falar sobre como a
vida da gente é conectada. Não adianta
eu ser feliz sozinha, nenhum homem é
uma ilha.
Como você encara as possíveis críticas
negativas ao filme? Sabe que nunca
penso nisso? Na estréia na Mostra do Rio,
muitos homens choraram [o crítico de cinema
Luiz Carlos Merten, de O Estado de S.
Paulo, confessou, no blog do Estadão, que
chorou no filme de Bruna]. Isso mostrou
que o filme derruba defesas. O Fernando
Meirelles disse que, se um personagem
não te pega, vem outro e,“pim”, pega. Minhas
coisas têm sido acima do que espero.
Imagina, fiz a letra de “Sozinho na Cidade”,
o Ri fez a música e o Caetano gravou.
Também fiz a letra de “Sorte”, que a Maria
Bethânia gravou. É difícil acreditar nos
dois interpretando letras minhas no filme.
Quando você atua, tem alguma vaidade
na escolha de seus personagens? Não. Já
fiz vários trabalhos, como Diadorim [personagem
de uma mulher que se passa por homem,
na minissérie adaptada do clássicoGrande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa],
em que precisava estar medonha. Mas
teve momentos em que muita gente falava:
“Você precisa se enfeiar pra ser levada a sério”.
Meus editores falavam que eu não podia
misturar meu lado bonito, glamoroso
como lado escritora. Mas não me prendi a
essas jaulas para ser aceita.
E, na vida, você é vaidosa? Ah,todo mundo
é. Mas meu sonho é ser mais vaidosa.
Porque sou muito trabalhadora, então sou
vaidosa “espelhinho do carro”, sabe? Meu
cabeleireiro me liga e fala: “Você precisa vir,
você é louca! Quer que eu vá aí?”.
Você gosta de esportes? Nunca fui de esportes.
O Ri é superesporte, eu sempre fui
voltada pra expressão. Mas faço ioga há
mais de dez anos.
E a sua alimentação? Nunca faço dieta.
Não acredito em fazer coisas contra sua
vontade. Claro, de vez em quando você fala:“Exagerei, deixa eu dar uma maneirada”.
Mas tem alguns pecados que eu adoro: vinho,
mandioca frita, pizza. E não me peso!
Sou uma pessoa de não-números. Não sei
há quanto tempo casei, por exemplo. Sempre
fui assim. Uma vez fui levar o almoço
pro meu filho na escola – ele havia esquecido
no carro – e não sabia a série em que
ele estava [risos], não tinha a menor idéia.
Você tem medo de envelhecer? Isso é inevitável,
mas tem coisas que me preocupam
muito mais do que isso. O que está
acontecendo com o planeta, por exemplo.
Se envelhecer fosse problema, que alegria.
Uma hora você vai ser escalada tipo Conduzindo
Miss Daisy [filme norte-americano
de 1989, que tem como personagem principal
uma senhora de idade]. Mas deve ser legal
viver esse momento porque senão sua vida
acaba antes.Tem gente que me encontra
e fala: “Ai, a época da faculdade”. Adorei
a faculdade, mas não queria estar nela
agora, porque eu estou onde estou. Não
tenho isso de olhar pra trás.
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