Tpm. Há incoerência na vida de Bruna
Lombardi? Bruna Lombardi. Meu temperamento. Se
você estiver na minha casa enquanto trabalho,
vai ver que sou superzen. Mas às vezes
me dá uns cinco minutos, tem um lado
meu que é descontrolado, meio italiana.Me
sobe o sangue se alguém falar ríspido. Vou
dar um exemplo: uma vez eu estava num
posto de gasolina na estrada e vi um caminhoneiro
jogando pedra num cachorro. Desci
do carro... O Ri falou que só viu uma
criatura pequena fazendo assim [apontando
o dedo] para um gigantão.
Talvez essas perdas de controle tenham te
feito bem, afinal, você chegou aos 50 mais
bonita que aos 30. Como construiu sua vida
até aqui? Olha, qualidade de vida é fundamental.
Eu entrevistei muitas mulheres
no planeta inteiro e vi muitas lindas que tinham
uma espécie de tensão. Quando a
gente fica tensa, fica feia. Imagina a vida inteira
assim. Se você não busca equilíbrio, é
complicado.
Você disse que não contabiliza a vida e
se esquece do que passou. Como é isso? Não sou uma criatura de guardar memórias.
Outro dia, o Ri me mostrou um livro e
falou: “Você lembra desse livro?”. Eu falei:
“Não”. Era
O Livro dos Segredos, do Osho. Ele
perguntou: “Você nunca leu?”. Eu falei: “Não
lembro”. Ele falou: “Só que você fez o prefácio
dele”. Quando li o prefácio, achei tão maravilhoso.
Tão certo com o que eu achava
naquele momento. Uma amiga minha falou:
“É muita coerência”. Mas eu nunca me
achei coerente.
Você nunca fez plástica mesmo? Vou fazer
em breve [risos]. Tô brincando, mas vou
fazer, sem dúvida. Um lifting na hora certa.
Quando você descobriu que era bonita? Descobri isso de tanto que me falavam.
Mas nunca fui encanada. Quando era modelo,
eu ia fazer foto de uniforme de escola,
usava rabo-de-cavalo. Me arrumavam inteira,
fazia a foto, pra mim era um personagem.
Daí me desmoronava inteira e voltava
de uniforme pra casa.
Como começou a ser modelo? Eu fazia aula
de dança, e um cara de uma agência foi numa
apresentação e me convidou pra fazer
umas fotos. Aí foi muito rápido, eu até queria
meio que me esconder...
Era tímida? Não, eu era moleque. Lacinho,
bolsinha cor-de-rosa, não eram meu estilo.
Eu andava com os meninos, ia para a rua.
Como foi sua infância? Eu era curiosa, queria
viver tudo, acelerada. Sou filha temporã,
meu irmão é dez anos mais velho. Meu pai
era cineasta. Minha mãe, atriz. [Bruna é filha
do diretor de fotografia Ugo Lombardi e de
Yvonne Sandner]. Tínhamos grandes conversas.
Uma família italiana, em que todo
mundo sempre falou junto. Foi na primeira
vez que assisti a um filme americano que vi
que uma pessoa falava e a outra ouvia. Aí dava
uma pausa, a outra respondia. Falei: “Que
engraçado! Eles param e ouvem”.
Por que seu pai veio para o Brasil? Veio com
minha mãe e com meu irmão nos anos 50,
quando vários técnicos de cinema da Inglaterra
e da Itália foram convidados para
montar a Vera Cruz aqui. Ele era um aventureiro
que saiu de Roma para isso. Trabalhou
com Fellini, Rossellini, Vittorio
de Sica. Veio para o Rio, onde nasci. Com
uns 8 anos nos mudamos para São Paulo.
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