Quantas vezes você já presenciou uma cena assim: você sai para almoçar com as amigas e, na hora dos pedidos, uma leve tensão. O que comer? A maioria escolhe salada. Alguma, em momento “hoje eu vou cometer um pecado”, escolhe hambúrguer com fritas. As outras olham torto. “Tem certeza de que vai fazer essa loucura?”Tente lembrar há quanto tempo você come sentindo o gosto da culpa em vez do sabor do chocolate. Não se trata de fazer apologia ao fast-food e a uma forma de alimentação não saudável. O que se questiona aqui é a privação do prazer que leva mulheres a encararem a comida como uma bula de remédio. Parece que não dá mais para comer com naturalidade, pois é preciso pensar nas calorias e nas gorduras trans. Como sentir algum gosto ao ingerir praticamente uma tabela periódica? O que parece apenas uma mania chata feminina pode virar corriqueiro. A carioca Mariana Santos, 27 anos, queria ficar mais magra para o casamento da irmã, dois meses atrás, e resolveu cortar os carboidratos por conta própria.“E quem disse que consigo voltar com eles? Isso não deixa de ser uma paranóia, mas já faz tão parte de mim que não sofro mais”, conta. De acordo com Fernanda Scagliusi, nutricionista do Genta (Grupo de Estudos em Nutrição e Transtornos Alimentares) e do Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas, em São Paulo), assim como Mariana, a maioria das mulheres criou uma relação equivocada com os alimentos. “Elas acham que a comida pode modelar seu corpo como quiserem. Existe um trocadilho que diz: ‘Antigamente a mulher era sexualmente casta, hoje ela tem que ser oralmente casta’.” Além da perda do prazer, a mania por dietas pode levar a transtornos alimentares como bulimia, anorexia e compulsão alimentar.

A tal da culpa
“Você vai querer um refrigerante magro ou gordo?” A pergunta não é feita em um spa, mas em um restaurante de São Paulo. Falar de comida deixou de ser elogiar o sabor de um prato pra se transformar em conversas obsessivas, recheadas de termos como “magro” e “superlight”. Além de chato, esse tipo de papo pode causar dois efeitos colaterais: culpa e, conseqüentemente, perda do gosto por comer.
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