eynaldo Gianecchini tem algo de, sei lá... Vale do Rio Doce.
Você lê, ou escuta o nome, e não pensa que existe um vale; e que nesse vale corre um rio; um rio que inspirou o nome doce em quem o batizou. Assim como você não pensa em um sujeito chamado Reynaldo, com ípsilon, e que o sobrenome final de
seu pai era Gianecchini. Pensa em alguns predicados difundidos
em larga escala pelo povo desta nação.
O Brasil não cansa de adjetivar esse nome: lindo, solteiro, ex da Marília Gabriela, pegador, vida mansa, talentoso, mau ator, sem talento, marido, sensível, alto, gay, bicurious, ator, modelo, celebridade, hétero, caso da Preta Gil, caso do filho da Marília Gabriela, caipira, fim da picada, tudo de bom, sem-sal, perfeito demais, ô, lá em casa, sou mais não sei quem. É polêmico, fato. Mas há um dado infalível, documentado em cartórios e nas estrelas: sob o signo de Escorpião, seis planetas em Libra (grifo do próprio), em 1973 nasceu na cidade de Birigüi um nenê de nome Reynaldo. E quando esse nenê fez 27 anos se tornou um famosíssimo símbolo sexual brasileiro.
Fazer o quê? Culpe o destino. Então dá uma certa pena quando o vejo posando sem vontade, todo vestido com roupas do patrocínio, cueca vermelha sobrando na calça, Emporio Armani bordado. Dá pena ao lembrar que revistas adolescentes o chamam
de Rey, assim com ípsilon. Revistas femininas obcecadas por orgasmos o chamam de Giane. Dá pena de ver o povo de passagem pelo Arpoador de Ipanema acenando e berrando vez ou outra “Falou, Giane!”.
Ele reclama. Mas não se importa com o saldo. “Cada um tem o que a vida lhe reserva”, explica. Sabedoria conveniente: não dá para se culpar pelo destino. Assim, Reynaldo não pede desculpas por ser quem é. E assume o carma enquanto se prepara para a foto de capa desta edição, rubricando um contrato com cachê de seis dígitos. Seis dígitos por oito horas de trabalho, outra sessão de fotos, campanha de perfume. Sim, Reynaldo Gianecchini tem algo de Vale do Rio Doce. Uma empresa, um plano, um balanço.
Escuta: Reynaldo Gianecchini não é exatamente o Reynaldo Gianecchini. É uma vítima da sorte que reconhece ter, da fama que tritura a identidade, das mentiras que aderem ao seu nome. E da misteriosa proteção que sente desde sempre e que “fez por merecer” com muito trabalho.
Verdade. É que ele está na linha de frente da novela das sete, grava todo dia. Precisa
ir à academia manter seus 34 anos na tão cobiçada forma. Estuda dança e canto para
um musical que fará depois do último capítulo de Sete Pecados. Tem que cumprir tabela para divulgar a estréia de Primo Basílio, longa-metragem de que participou sob o volante de Daniel Filho. Vez ou outra agenda o tilintar de seis dígitos para uma campanha publicitária. Perde segundos, que viram minutos e horas, dando autógrafos, tirando fotos com o povo que pensa que viu uma notícia ambulante. E tem que fugir do
olho público para manter alguma vida privada e sentir-se normal, um rapaz de Birigüi.
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