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"Falavam que família não dava certo para quem tinha uma complicada. A minha deu" |
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Agora isso mudou e você é respeitada. Eles que mudaram. Como é que vão dizer
para uma pessoa como eu, que tem 25 anos de carreira, que tinham razão naquela épo-
ca, quando metiam o pau em mim? Mas, olha, as pessoas realmente importantes
me deram valor naquela época, como o Rubem Braga, o Chico Buarque. O Rubem
Braga que falou de mim para o Chico Buarque em 85 e o Chico me chamou para
cantar com ele. Eu achava engraçado. Mas o artista tem radar e saca quando alguém
é artista de verdade. Nem sempre está pronto, precisa evoluir. Tem gente que
nasce pronta, eu não nasci.
Escrever sempre foi importante para você?
Sempre gostei, desde o colégio. Escrever é a minha viagem como ser humano.
Escrever é o que gera tudo, a minha vida toda está ligada a isso. Tudo o que eu tenho
de bom veio daí: meus parceiros, meu marido, meus amigos. É quase como se eu
não existisse se não escrevesse.
Você faz música de amor. É romântica?
Não. E tenho muitas críticas ao amor romântico, acho que atrapalha demais a vida
e até o próprio amor [risos]. Essa coisa de idealizar e acreditar em príncipe encantado atrapalha demais a vida das pessoas. Por que você vai ficar esperando
coisas do outro? Melhor dar algo para o outro. Mas hoje não tem mais isso, essas
divisões binárias: homem, mulher, bom, ruim, feio, bonito. Essas polaridades são
muito século 20. Já passou. Na minha vida eu sempre procurei uma coisa assim,
que não estava nos manuais. Tudo que eu realmente realizei de interessante foram
coisas que não fiz pelo manual. Falavam que família não dava mais certo para quem
tinha uma família original complicada. A minha deu. Diziam que banda não dava
certo no Brasil. A minha deu.
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Você escreve também sobre sexo, que é uma coisa que poucas mulheres fazem.
Gosto de escrever sobre as coisas nevrálgicas e importantes da vida. E sexo é uma
dessas coisas. Ainda existe uma questão moral no Brasil com isso, as pessoas estranham. Mas você não pode falar sobre a vida e ignorar o sexo. E sexo é uma coisa muito prática, palpável, que você vai lá e faz. É uma questão de dar prazer para você e para o outro. Amor é mais complicado, porque não é nada prático. Sexo é sexo. Nunca gostei daquela expressão “fazer amor”, se bem que fiz aquela música que fala de fazer
amor de madrugada...
Quando disse que ia te entrevistar, ouvi de várias pessoas que “você estava muito
bem para a idade”. Você acha que a obrigação de envelhecer e continuar bonita é maior para a mulher? A idade é um tabu, e para a mulher é mais, sim. Mas como é uma
coisa sobre a qual não adianta discutir... Gente, não dá para questionar isso. A idade
é uma coisa prática!
É igual questionar morrer? Olha, morrer eu acho que até dá para questionar. Eu não acho que eu vou morrer. Para mim isso é uma coisa tão sobrenatural... Para mim só
existe a vida. Eu nunca morri. E quem morreu também não me contou como é.
Às vezes penso em telefonar para alguém que já foi e perguntar como é. Eu olho para
o celular e penso: “Pô, que coisa inútil, ia ser tão bom se a gente tivesse como falar
com um amigo do outro lado e ter outro tipo de conversa”.
Mas medo de envelhecer, então, você não tem? Não. Tem só aquelas coisas desagradáveis. Você começa a ter uma dorzinha aqui e outra ali, vai ao médico e ele diz:
“Isso poderia acontecer com uma criança de 7 anos”. E você pensa: “Eu já tive 7 anos
e isso nunca aconteceu!” [risos]. São dores que andam pelo corpo... Se você levanta rápido, fica tonta.
Você não acha que o rock ajuda a manter o espírito juvenil? Não só o rock. O importante é estar ligada, trocando o óleo. Mas é claro que tem uma troca com o público que é sensacional.
Você ainda fica nervosa com shows? Olha, na minha estréia universal e intergaláctica desse show solo [em São Paulo, no bar Baretto, em junho], entrei em pânico. Três dias antes, comecei a pensar: “Gente, o que está acontecendo comigo?”. Comecei a errar nos ensaios, a ficar meio desorientada. Tenho essa coisa de mulher de pensar em três coisas ao mesmo tempo. Aliás, acho que essa é a minha maior reclamação em relação a mim mesma no momento. Não consigo fazer só uma coisa! Em casa, se estou escovando os dentes, penso: “Enquanto isso posso guardar aquilo que está ali, atender ora
telefone”. Como você tem essa capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo,
passa a ser assim sempre. Isso é uma loucura! Quando vi, estava ensaiando o show
pensando no que ia dizer durante as músicas, em como ia ser. |
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