Tpm. A impressão que dá ouvindo suas músicas, principalmente as do novo disco, o solo, é que você se expõe nas letras. Isso é verdade?
Paula Toller. A única maneira de o artista fazer música de uma forma sincera é se
expor no próprio trabalho. Estou falando isso em comparação com essa onda de exposição dos artistas na mídia. Prefiro expor o que interessa, e no lugar que tem a ver, que é na música. E aí entra tudo, uma parte autobiográfica, as pirações da minha cabeça, as coisas que eu estou vivendo e que me interessam comentar. É assim que gosto do trabalho dos outros, quando vejo escorrer sangue.
Gosto de ir ao ponto onde dói, e isso às vezes causa certas complicações...
Que tipo de complicações? Ser muito direta e muito sincera tem a ver com um jeito meio
masculino que eu tenho. E as pessoas nem sempre estão acostumadas.
Em uma das letras do seu disco novo, você fala que queria ser uma flor, mas que não
consegue e é meio moleque... É, é isso mesmo. Tive aquele lado menina desde criança,
de brincar de pegar lençóis e fazer roupas de princesas, querer ser bonita. Mas o meu
dia-a-dia sempre foi de menino, de jogar botão, futebol. Fui criada, com um irmão,
por pai e avô. Tinha uma avó também, mas os homens sempre foram muito presentes.
Hoje eu tenho essa questão bem resolvida, ainda mais depois de ter filho.
Tem dias em que você acorda e pensa: “Pô, até que seria bom se eu fosse uma mulherzinha frágil”? Não. O que acontece é que às vezes eu me sinto meio deslocada quando estou no meio de mulherzinhas. Não de mulheres, mas de mulherzinhas mesmo.
Quando sinto que o tom é delicado demais, frágil, fico meio inadequada naquele meio,
não sou delicadinha!
Você parece ser uma mulher fodona, daquelas que cuidam das suas coisas e fazem
o que quer. É verdade? Estou vivendo como nunca vivi este momento na minha vida.
Comecei a fazer várias coisas que não fazia antes, como dirigir uma banda sozinha para
um show, assinar sozinha um trabalho, ter muita responsabilidade.
Fazer um trabalho solo tem outro lado que deve ser complicado. Sem os companheiros
de banda, as críticas caem todas só na sua cabeça, não é? É. Mas eu sempre tive
um lado de deixar bater, de assumir tudo pra mim. Tanto os elogios quanto as críticas.
Não é ego trip. É uma tendência minha de não mandar recadinho, de encarar e falar:
“Ah, quer bater, então bate em mim”. E vejo até onde agüento. Nem sempre agüento,
porque a vida é dura. Tem hora em que você precisa parar de brigar e falar: “Gente, bandeirinha branca”.
O Kid Abelha foi muito criticado quando começou, nos anos 80. Você não acha que o
fato de a banda ser liderada por uma mulher, além de tudo bonita, aumentou o preconceito em relação a vocês? Bonita eu não era. Aparecer como mulher mesmo só fui conseguir em um certo momento, quando aquilo não era mais um problema de afirmação para mim. Mas no início, pensando hoje, tinha sim um lado machista. Duvido
que algum dos meus colegas de geração tenha sido debochado da maneira que eu fui.
Você não ouvia, por exemplo, falarem que amigos meus eram desafinados, e alguns
são superdesafinados. Mas acho que era legal falar mal de mim porque eu não era da
galera, não me drogava com alguns jornalistas, não fazia parte da social. Tinha muito
disso. E também tinha muito jornalista vagabundo, que só copiava matérias de fora. |