Dá pra coisa?
Para conhecer de verdade as prostitutas e entender suas escolhas, a repórter da Tpm penetrou na indústria do sexo em São Paulo. Um universo até então desconhecido para ela, mas que não tem nada de paralelo
Você faz chupetinha? Me pergunta Carlos*, gerente de um prostíbulo de alto padrão em São Paulo, durante a simulação de uma entrevista de emprego. Este foi o primeiro lugar que visitei para conhecer o cotidiano das minhas protagonistas. Carlos está acostumado a perguntar detalhes sobre a vida sexual das garotas que chegam lá atrás de trabalho. Se gostam de sexo, se já tiveram muitos parceiros, se topam anal... Quando sugeri que me entrevistasse, ele pediu que eu me levantasse e desse uma voltinha. Me olhou de cima a baixo, como quem avalia uma mercadoria, e soltou um seco “tá bom”. Depois de sondar meus motivos para estar ali, me deu dicas de como enrolar clientes. “Se você não quiser fazer anal, não pode dizer ‘não rola’. A tática é falar: ‘Tá aí algo que sempre quis fazer, mas ainda não encontrei ninguém com quem me sentisse à vontade’. Você não faz, mas o cliente fica com esperança.” Enquanto conversávamos em uma sala reservada, eu olhava o salão principal através de um vidro: mulheres lindas, cabelos esticados, seios e bundas empinados dentro de vestidos, microssaias, tops ou apenas calcinhas e sutiãs. A maioria dos clientes é casada. Em trajes sociais, eles estavam à vontade entre as moças com quem jantavam, conversavam ou saíam de mãos dadas em direção às suítes. Dois homens entraram na salinha falando aos celulares: “Estou em reunião, meu amor. Vou ter que ficar mais um pouco na empresa”.
O gerente, por favor São 250 funcionárias que se revezam de segunda a sexta das 14h às 4h e, aos sábados, das 14h às 23h. O preço mínimo do programa é 200 reais, mas varia de acordo com o cliente. Elas fazem em média dois programas por noite. O dinheiro não é dividido com a casa, que lucra com bebidas, jantares e suítes. No fim do mês, as mulheres faturam cerca de 6000 reais. “É um dinheiro que entra rápido, mas também some rápido. Não conseguimos juntar. É maldito”, diz uma garota que trabalha lá há quatro anos. Aos 48 anos, Carlos cultiva profundas olheiras que denunciam seis outonos no ramo da “noite”. “Não troco por nada”, diz, enquanto observamos o ir-e-vir de suas meninas. “Olha o rabão daquela ali. É feia de cara, mas boa de bunda.” A boa de bunda e as demais funcionárias o cumprimentam com selinhos. Nesse momento, chega uma loira: “Carlos, aquele cara quer que eu chupe ele no banheiro”. “Tem que ser no da suíte”, retruca o chefe. “Mas a fantasia dele é no banheiro público.” Depois de alguma negociação, a moça volta ao bar e, em seguida, a vemos sair de mãos dadas com o cliente em direção ao banheiro dos homens.
A regra é clara Conversei com quatro prostitutas, todas jovens mães. Elas escondem da maioria das pessoas a profissão. Embora tivessem perfis diferentes, concordavam numa coisa: nenhuma queria que os filhos soubessem de sua profissão. Por vergonha. Então por que continuavam ali? A resposta não variava. “Preciso da grana, mas não vou ficar a vida toda.” O discurso se estende a outras boates no centro de São Paulo, na região conhecida como boca-do-lixo, onde o preço do programa gira em torno de 60 reais, e a Estação da Luz, povoada por prostitutas mais velhas que cobram até 20 reais. Lá, a indústria do sexo funciona 24 horas e disputa espaço com trombadinhas e o tráfico de drogas. Visitei também a Vila Mimosa, ponto de prostituição no subúrbio do Rio de Janeiro. As ruas estreitas de paralelepípedos abrigam bares com cadeiras de plástico e mesas de sinuca nas calçadas. Ao chegar nesses lugares, eu era sempre um elemento estranho e despertava curiosidade e desconfiança nas pessoas ao redor. Descobri uma realidade menos promíscua do que muita coisa que se vê por aí, no mundo “politicamente correto”. As garotas de programa não destroem famílias (ao contrário, ajudam muito casamento a se manter), não manipulam só por vaidade. É um jogo e as regras são claras. Aprendi a respeitá-las, afinal, o que elas passam não é para qualquer uma. Tem que ter estômago. E, no fim, acima de tudo, somos todas mulheres. E mulheres se entendem.
* Carlos é um nome fictício
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