Maria de Lourdes é mãe de Leila e Paulo Barreto

Uma das lembranças mais fortes da infância para Leila, 41, é a casa em que morava, em Belém do Pará, com uma placa escrito “Família”, na porta. “Eu não entendia, mas depois percebi que era para diferenciar das casas de prostituição.” A mãe, Lourdes, pagava uma família para abrigar seus quatro filhos. Naquela época, a profissão era crime e só de passar na rua para amamentar a prole ia parar na cadeia por algumas horas. Sempre foi presente.“Ela nos visitava, levava para passear em museus, bosques...”, conta Paulo, 40, policial. Foi na adolescência que os filhos notaram que não podiam ficar falando sobre o trabalho da mãe fora de ca­sa. Lá dentro, acostumaram-se com a idéia desde cedo. Lourdes sempre fez barulho. No dia da foto, ela entrou no carro da reportagem da Tpm com a filha Leila, a neta Juliana, 20, e o neto Rafael, 14, e, enquanto abraçava o menor com aquele carinho típico de avó, falava com o mesmo tom afetivo: “Meus dez netos têm orgulho da avó puta deles”. Depois, família reunida na casa do filho, ela solta: “Estou numa ressaca brava, ontem fiquei até de madrugada na zona”. Em 2002, foi candidata a vereadora com o slogan: “Vote na mãe, que nos filhos não deu certo. Mais puta é a vida que a gente leva”. Recentemente, o neto de 13 anos perguntou: “Vovó, como é essa sua profissão de prostituta?”. E toca Lourdes a explicar tudo de novo. Sem cortes. Leila pretende terminar a faculdade de letras e é parceira da mãe no Gempac (Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central de Belém). Há cinco meses, Lourdes ataca também de atriz, na peça Laquê (“porque a zona nos anos 30 cheirava a laquê”), em cartaz no Espaço Cuíra, toda terça, às 21h, em Belém, até dezembro. “Sempre fui uma atriz na cama com os clientes.” Só ampliou o público.

 
 
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