Sua mãe tá na zona!” A frase pode não passar de xingamento infundado, mas e se a mulher que te pôs no mundo estivesse mesmo rodando bolsinha? Mãe é figura sagrada na cabeça de qualquer filho. Até se aceita que ela tenha transado – quer dizer, feito amor – uma vez na vida para nos conceber. Mas nin­guém imagina a própria genitora se entregando a prazeres sexuais, fazendo contorcionismos e tendo orgasmos múltiplos. Ou se submetendo às vontades de homens – muitos na mesma noite – em troca de 50, 30, 10 reais. André, Camila, Angélica, Valéria, Paulo e Leila tiveram que aprender a conviver com a idéia. Filhos de prostitutas, são ho­mens e mulheres bem-educados. Entendem que o trabalho da mãe foi para lhes dar uma vida melhor e aceitam. Ai de quem questionar a pureza das matriarcas.
Elas têm horário para chegar e sair de casa, não levam homem da porta para dentro nem vão para a cama com vizinhos. Na maior parte do tempo, não carregam na maquiagem, usam vestidos até a canela e calças compridas. De cara, acabam com o preconceito de quem espera estereótipos.
Como jogador de futebol, prostituta é uma profissão curta. Cida, 42, Lourdes, 64, e Nilza, 53, chegaram a ganhar 2000 reais por mês. Hoje se contentam em pagar a carne do almoço. Vivem sozinhas, mas já tiveram seus romances. Muitos começados no trabalho, alguns que acabaram em filhos. Todas engravidaram de pelo menos três homens, mas os pais são meros coadjuvantes. Elas fazem os dois papéis.
Ao contrário da maioria das profissionais do sexo que encontramos em boates de São Paulo, Rio de Janeiro e Belém do Pará, essas mulheres não têm vergonha da escolha que fizeram. Falam que são “da vida” com a naturalidade com que contam sobre outros empregos. A paraibana Lourdes é prostituta há mais de meio século. Aos 15 anos, fugiu de casa depois de sofrer abuso de um tio. Uma amiga a levou para a zona, sem que ela sequer soubesse do que se tratava. Nunca mais abandonou a profissão, embora tenha sido também funcionária pública na área de saúde e militante contra a ditadura nos anos 60. Hoje concilia os clientes com o trabalho no Gempac (Grupo de Mulheres Prostitutas da Área Central de Belém, ONG que luta pelos direitos da profissão), da qual é uma das fundadoras.

Casa de família

Cida nunca deixou de trabalhar como diarista. Mas a partir das 5 da tarde pode ser encontrada na Central do Brasil, Rio de Janeiro, onde faz ponto. Às 20h volta para casa. Nunca trabalhou até tarde por medo do perigo. Nilza também faz faxina em casa de família e é prostituta há mais de 30 anos, mas gosta de deixar claro que não se viciou. “Tem gente que começa a ganhar dinheiro rápido e não quer saber de outro emprego. Eu não recuso nada.” Também não sai da zona. As duas se conheceram na ONG Davida, fundada pela prostituta Gabriela Leite (também responsável pela marca de roupa Daspu, lançada em 2005), com os mesmos objetivos do Gempac. Elas conscientizam colegas pelo Brasil afora sobre o uso da camisinha, os riscos de doenças e a importância de fazer exames.
Cida, Nilza e Lourdes nunca pensaram em abandonar o trabalho porque, para elas, é como outro qualquer, com a vantagem da velocidade com que o dinheiro entra. São chefes de família comuns. O respeito que os filhos demonstram por elas é até maior do que se vê em muita casa tradicional. Alguns cresceram sabendo que a mãe era prostituta, outros descobriram mais tarde. Todos logo viram que esse não era um assunto natural para as outras pessoas. O preconceito que sentem fora não condiz com a realidade que vivem em casa. Para eles, o que existe são mães que nunca mediram esforços para lhes dar uma vida digna. Mulheres fortes que não se escondem e se dão o respeito. Que vendem o próprio corpo pelos filhos. Que fazem sexo por amor.

 
 
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