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Como foi a chegada ao Brasil? No Rio de Janeiro, fomos levados para a Ilha das Flores, onde os imigrantes ficavam de quarentena e só saíam dali com emprego. Meu pai foi procurado por um pessoal do Sul, de colônia estrangeira. Ele disse: “Olha, não leva a mal, mas eu vim para o Brasil. Quero virar brasileiro. Não quero ficar como vocês, com um pé lá outro cá...”. Um homem sábio meu pai. Um tipo inesquecível. Daí veio um senhor de Itabira, Minas Gerais, dono de uma fazenda um pouco abandonada, dizendo que o único problema de lá é que só tinha negro. Meu pai respondeu: “Problema nenhum, viraremos negros”. Então fomos.
Quando chegou ao Brasil, tinha medo de homens negros... Tinha medo porque não conhecia. Medo do desconhecido. Levei um susto, chorei.
O que aconteceu para admirar o homem negro mais do que o branco? Meu pai me pegou pela mão na roça e me levou na casa de uns negros. Disse para eu passar o dia lá. Meu amor, o medo durou cinco minutos, porque dali a pouco eu já estava em estado de graça, não queria mais ir embora. Eles são um exemplo – além de serem mais fortes, física e espiritualmente. O branco é o retalhador. O negro não. Você vê o que fizeram com Nelson Mandela e ele não fez uma retaliação.
Quando seu pai faleceu? Ele escolheu o dia e avisou que ia morrer. Morreu tranqüilo, uma maravilha. Foi na véspera de Natal de 86.
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Você tem medo da morte? Não, claro que morrer esfaqueada eu não quero. Agora, medo de morrer não. Morro todo dia quando vou dormir. Um dia você acorda aqui, outro dia você acorda lá [risos]. Uma vez, minha outra secretária foi me acordar e não conseguia... Levou uns 15 minutos para conseguir. Quando ia chamar a ambulância, acordei. Sonhava com um lugar maravilhoso, cheiroso, um outro planeta, que as pessoas eram lindas... Mas percebia que estavam me chamando na Terra... E eu não queria voltar, cacete.
Você tem pressa de ir para o “outro lado”? Olha, estou pronta. Se for o caso, não quero ficar muito mais. Ficar muito velho eu não acho graça não. Acho que devam existir lugares bem interessantes para conhecer longe daqui.
O que significa não “querer ficar muito mais”? Meu pai morreu com 65 anos, uma idade boa de se morrer. Essa coisa de viver muito, não acho bom... Morrer senil numa cama, hum...
Foi com o Clodovil que você começou a usar roupas diferentes? Não. Eu já usava assim e ele fazia roupas para mim porque eu era diferente. Ditei a moda. Eu sempre fui diferente, desde que nasci. Eu tinha uns 20 anos de idade quando morei na Alemanha e trabalhei como tradutora-intérprete – só tinha duas mudas de roupa. Todos os dias o pessoal que trabalhava nos setores próximos vinha ver como eu estava. Usava as mesmas roupas de jeitos diferentes. Botava uma coisa com a outra...
Quais são os estilistas que você admira hoje? Walério Araújo, de São Paulo, e Breno Beauty, de São João del Rey, que faz enfeites lindos de cabeça, chifres... Adoro chifre! E adoro John Galliano. |
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