Tpm. Gosta do dia do seu aniversário?
Elke.
Adoro. Gosto de comemorar com amigos, enchendo a cara. Semana que vem, passo por uma operação, então, não vou poder dançar no meu aniversário – mas encher a cara vou poder. Não tenho problemas com o envelhecer. Não sei como... Acho que já nasci velha [risos]. Talvez porque minha mãe tenha sido um exemplo para mim. Ela era muito mais bonita do que eu e envelheceu sem se preocupar com a maquiagem...

Tem cuidados com a saúde? Não. Bebo, fumo dois maços por dia, faço tudo errado... Passar creme é de vez em nunca...

E plástica? Já fiz lipoaspiração e me preocupo com o papo. Minha família tem tendência a papo, e papo não quero não. Papo é para peru! Então, quantas vezes precisar, tiro o papo. Agora, esticar [faz gesto na cara puxando a boca pra trás] muda tudo. Muda a expressão, e eu preciso da minha expressão.

Qual sua bebida predileta? Cachaça. Sou cachaceira legal.

E tem hora para beber? Não gosto de beber de dia. Também não gosto de beber sozinha, nem todo dia. Sou preguiçosa fisicamente, não gosto de sol, não gosto de andar na praia. Gosto de sentar num quiosque da praia e tomar cachaça. O Rio de Janeiro é lindo.

Como você enfrenta seus medos? Avançando. Nunca recuo. Não viro de costas para a onda. Enfrento a onda. Talvez possa furá-la. Se virar de costas, ela me engole.

Você já foi engolida por uma onda? Não. Agora, já enfrentei situações perigosas.

Lembra de uma situação dessas? Há muitos anos, na Bahia, estávamos rodando A Força de Xangô [Iberê Cavalcanti, 1977]. Depois da filmagem fomos a um show do Martinho da Vila. Lá, me apresentaram um rapazinho novinho. Ele convidou a turma toda para ir tomar whisky na casa dele – fui com o rapazinho no carro, que só tinha dois lugares. Chegamos, bebemos e nada de o pessoal aparecer. Lá pelas cinco da manhã decidi ir embora. Quando levantei, o homem virou outra coisa. Aí, vi a morte. “Você não vai!”, gritou. Trancou a porta e começou a arrancar minha roupa. Meu instinto funcionou: “Espera aí, calma...”. Tirei a roupa, abri as pernas e disse “pode vir”. Pronto, acabei com ele. O estuprador quer luta, aí que ele fica com o pau mais duro. Mas não lutei, ele brochou e começou a chorar. Daí, falei: “Bom, então, posso ir?”.

Você nasceu em fevereiro de 1945 e é filha de um russo e uma alemã que se conheceram no combate. Você acredita mais na guerra ou na paz? Sou filha da guerra. Acredito na paz, mas nós não estamos prontos para ela. A gente não pode ter paz por enquanto. Não agüento as pessoas que ficam pedindo paz, paz, paz. Quando um nobre, como minha mãe, casaria com um russo fodido? Só na guerra mesmo. Na guerra, ninguém é nada, ninguém é rico, nem nobre, nem porra nenhuma. A guerra nos nivela. No Brasil, o fato é que nós só excluímos, excluímos, excluímos pessoas... E não preciso ser socióloga para saber o elementar: se tenho um brinquedo e não divido com meu irmãozinho, um dia ele vai pegar o brinquedo na porrada. E é isso que nós fizemos. Nós somos bonzinhos [diz em tom irônico], mas deixamos nossos irmãos na fila do Inamps.

Seu pai foi preso num campo de concentração soviético na Sibéria por ter lutado contra a pátria na Finlândia. Como ele conseguiu fugir? Ele conseguiu fugir pela frente, depois de tentar duas vezes escapar pelas cercas elétricas. Então, se escondeu atrás de um arbusto, mas foi descoberto por um policial. Só que tem umas coisas na vida que a gente não sabe explicar... Parece que os deuses tocam e, de repente, a humanidade grita mais alto dentro da pessoa: o policial abriu o arbusto, olhou para meu pai, fechou o arbusto e disse para os colegas que ali não tinha ninguém. Até o fim da vida meu pai procurou esse cara, mas nunca o encontrou. Na França, meu pai foi preso de novo, e eu participei do plano de fuga: como era um bebê muito sorridente, minha mãe escondeu uma arma em mim e consegui passar pela revista, pois fiquei beijando o soldado, que acabou se distraindo.
 
 
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