 |
E também achamos que nunca vamos ter vontade de trair? Se dividir não é algo trivial para uma mulher. Acho que o problema fundamental da traição feminina é que a mulher nunca está preparada para a divisão. E o homem é acostumado com isso desde criança. Para o homem, a traição é uma coisa normal. Ele sabe que pode amar uma e transar com outra. Para a mulher é sempre um drama, é: “Como eu posso ter desejo por ele se eu amo o meu marido, o que está acontecendo comigo?”, uma confusão.
A gente é capaz até de romper uma relação só por desejar outra pessoa? Ah, sim, porque não suportamos essa divisão. E também não conseguimos ficar sem a figura de um homem por perto, esperamos um homem que vá resolver todas as nossas faltas.
Isso quer dizer que a gente ainda acredita em príncipe encantado? Eu não gosto dessa expressão porque acho que nem um príncipe vai resolver todos os problemas de uma pessoa. Teria que ser um superpríncipe [risos].
E esse é um problema brasileiro? Sim. A mulher européia não acha mais que precisa de um homem ao lado. Na cultura deles já está claro que você tem várias maneiras de viver. Ter um homem, para a mulher brasileira, ainda é primordial. E ao mesmo tempo ela quer ser livre, loira, linda. Isso traz muito sofrimento.
Homens e mulheres lidam com o fato de serem traídos da mesma maneira? Não. Lidam de formas completamente diferentes. Homem não quer saber, ele não procura. A postura do homem é: “Se ela parecer fiel, eu sou feliz. Finja muito bem.” A mulher já tem essa postura de nunca acreditar que o homem é fiel, de procurar indícios de traição. E aí vai acabar encontrando, não é? Porque se ela não acredita provoca raiva no cara. Mas eu descobri homens fiéis. A infidelidade masculina não é uma certeza.
A mulher sofre mais quando é traída? O drama da traição, para mim, é maior para a mulher porque ela precisa de um homem que mostre para ela que ela é especial o tempo inteiro, seja o marido, o amante. A outra se acha única até para o amante, mesmo em uma relação onde ela evidentemente está em segundo plano. Acredita que a oficial é tipo uma coitadinha, ou uma puta. Quando a mulher descobre que é traída, desmorona não pela traição, que ela até entende racionalmente, mas por perceber que esse discurso de ser tão especial cai por terra.
Depois dessa conversa, dá impressão de que nós, mulheres, andamos meio loucas. Existe solução? Não, não estamos loucas. Isso é cultural. A cultura constrói a gente muito fragilizada sem um homem. É como se eles fossem objetos disputadíssimos, um objeto fundamental. Enquanto a gente não reverter isso, vamos continuar agindo como loucas, disputando atenção, achando que um telefonema pode mudar a nossa vida. O que a gente precisa é reverter essa idéia de que uma mulher sem um homem é uma fracassada, uma mulher menos. No dia em que as brasileiras falarem: “A minha opção é casar e ter filhos”, “a minha opção é não casar e não ter filhos”, “a minha opção é ter um filho sem casar”, quando tivermos todo esse cardápio de escolhas, vamos ser livres. Eu tenho nos meus dados que as mulheres invejam a liberdade masculina. Como pode? Depois de tudo o que a gente avançou? Isso é porque as mulheres não são livres!
E continuamos achando que vale ter um homem a qualquer preço... Sim. A infidelidade só é um drama por causa do valor que o casamento e o homem têm na nossa cultura. O homem pode ser meio infiel, meio alcoólatra, meio violento. Porque o importante é ter um homem. E, sinceramente, não sei em que geração isso vai mudar. Depois de tanta coisa, tanta liberação, acho que houve um retrocesso. Andamos meio conservadoras.
Uma coisa que me irrita é essa conversa sobre “falta de homem no mercado”. Você não acha que isso é a maior mentira? Olha, é uma mentira para você, que foge desse clichê e não se coloca dentro de um mercado, como algo que está ali para ser vendido. Quem se coloca no mercado, procura um bom partido, vai ver que existe mais mulher que homem, sim. Mas, é claro, se colocar em um mercado de relacionamentos não é tão legal. E quem se dá bem com isso são os homens, que acham que podem ter todas as mulheres do mundo para escolher. Mas quem se coloca de fora do mercado percebe claramente que não falta homem. |
|
|
|
|
|
|