mulher brasileira ainda precisa do olhar de um homem para se sentir aprovada e acha que pode ser a única coisa especial na vida do cara. Por isso, quando é traída, desmorona.” O pensamento da antropóloga Miriam Goldenberg, 50, autora do livro Infiel, Notas de uma Antropóloga, transforma nossa conversa de tarde de verão carioca em uma pequena intentona feminista. “Quando vamos perceber que o casamento é só uma das opções e não a única? Quando vamos ser livres e mais Leila Diniz?”, ela vai se perguntando. O tema inicial da conversa era infidelidade. Mas, como a antropóloga estuda há cerca de 20 anos o comportamento das mulheres de classe média brasileira (você mesma, leitora da Tpm), é impossível não falar sobre fi­lhos, casamento, obsessão pela estética. Inclusive porque ela acredita que infidelidade tem a ver com tudo isso. Uma das teses de Miriam é que pensamos que podemos encontrar tudo em um homem, que ele pode pre­en­cher todas aquelas nossas faltas existenciais. Como se isso fosse possível! O problema, de acordo com a antropóloga, ainda é maior para as brasileiras. Ainda não aprendemos que dá pra ser feliz solteira, casada, amigada e que existem mil maneiras de viver. E, sim, ainda fingimos que não sabemos que um dia seremos traídas (quem nunca foi?) e um dia trai­remos (quem nunca traiu?). E isso não é um drama tão grande assim. Faz parte da vida. Leia a seguir trechos da conversa com a antropóloga que conseguiu, no meio de uma tarde qualquer, ter uma conversa sobre infidelidade que foge completamente dos clichês que a gente está acostumada a ler por aí. Ah, ela também gasta seus dias com assuntos ligados ao universo feminino. Já lançou A Outra, De Perto Ninguém É Nor­mal e Toda Mulher É Meio Leila Diniz.
Tpm. Por que você decidiu estudar infidelidade? Este ainda é um assunto importante para as garotas? Miriam. É a segunda vez que estudo o tema. Meu primeiro trabalho sobre isso foi há 20 anos, quando fiz doutorado. Decidi falar sobre desvio e escolhi esse tema porque é um comportamento desviante que nunca foi estudado. Quando fiz 50 anos, resolvi escrever um livro de presente para mim mesma e achei que era hora de voltar ao tema, porque ficou inconcluso.

Você não acha que o conceito de infidelidade mudou nesses últimos 20 anos? A gente é independente, não precisa mais do papel de um homem como antes... Pior é que precisamos. O que mu­dou é que a outra de an­tigamente, que dependia financeiramente do ho­mem, não e­xis­te mais. Hoje, a amante é uma mu­lher independente. Mas o que me mo­tivou nesse trabalho foi ver que muita coisa não mudou, que a infidelidade ain­da é um sofrimento enor­me na nossa cultura. Que a mulher traí­da­ se sente uma fracassada, por mais que se­ja moderna.

Mas, sinceramente, não é praticamente impossível ter um re­la­cionamento duradouro sem que haja infidelidade? Por mais que a gente saiba disso ra­cionalmente, você deseja ser úni­ca e es­pecial e acredita que pode ser tudo isso para a pessoa que ama, o que é uma bai­ta ilusão romântica. Achamos que, quan­do encontramos alguém, ele vai es­quecer todo mun­do, o passado, as ou­tras pessoas e só olhar para a gente. Somos alimentadas por essa ilusão.
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