E como era sua convivência com as divas do cinema italiano? Boa. Eu e Silvana Mangano, por exemplo, éramos muito amigas. Aquela era uma grandessíssima atriz. E linda, a mulher mais linda que já conheci. Que Sophia [Loren] não se zangue. Um corpo lindo, e linda porque era linda por dentro também. Senti muito a sua morte. Ela tinha um apartamento em Nova York na mesma época que eu, e a gente sempre saía pra almoçar juntas. Ela adorava comida russa e beber uma vodkinha.

E você já estava no auge e podia escolher o que queria fazer... Pois é. Mas eu fiz uma coisa bastante engraçada. O diretor pediu pra eu fazer esse filme, eu não queria, de jeito nenhum. Recusei. Mas eles precisavam de um nome e vieram me procurar de novo. Aí eu disse pra Marina: “Sabe de uma coisa? Fala pra eles que eu faço o filme se ganhar o mesmo cachê diário da Elizabeth Taylor”. Ela ganhava 10 mil dólares por dia. Eu tinha pouco trabalho nesse filme, mas bastava para eu me gabar que tinha tido um contrato igual ao da miss Taylor. O problema foi o ator com quem contracenei, Antonio Sabato. Ele tinha feito um filminho de cowboy e se achava uma estrela, e era tão insuportável que filmei em menos dias do que o combinado. Ganhei menos, mas tive um contrato como o dela.

Você conheceu o Fellini? Demais. Eu tinha uma casa de veraneio quase vizinha à dele. De noite, ele vinha bater papo comigo e com a Marina. Mas não falava nada. Ficava cantarolando as músicas de Nino Rota. Quem falava era a mulher dele, Giulieta. Ela vivia dando aulas de cinema. Dizia: “Florinda, quando a câmera vier, em primo piano, faça poucas expressões e coloque toda a sua intensidade nos olhos”. Ela era muito engraçada. Uma vez fui me queixar com ela de umas críticas negativas que tinha recebido e ela disse: “Florinda, não deixe que ninguém te destrua. Aprenda: o jornal sai, o napolitano lê, joga no lixo e, no dia seguinte, aquele papel limpa o culo dos outros!” Foi assim que aprendi a não dar bola para a crítica.

E a Cláudia Cardinale, você a conheceu? Todinha. Eu via muito a Cláudia porque o irmão da Marina era muito amigo dela e do marido. Então a gente acabava se encontrando sempre. E a Cláudia era muito curiosa sobre a minha vida, a Marina, essas coisas.

Gosta de ser vista como modelo de liberdade dos anos 70? Posso dizer que quebrei todos os tabus daquela época. Todos. Não tive nenhuma inibição para fazer o que quis. Vivi com as pessoas que amei. E, se não quisessem me aceitar aqui, me aceitariam ali, ou lá. Mas nunca fui panfletária, de fato com quem você dorme não importa. Não importa se você dorme com homem, mulher, cachorro ou papagaio. Importa quem você é.

Trip + O mergulho na vida de Florinda e no cinema italiano dos anos 70 continua na versão impressa da Tpm de outubro, nas bancas.


 
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