Cearense de nascença e italiana por adoção, aos 65 anos Florinda Bolkan não tem saudade dos tempos em que sua extraordinária beleza e um talento adormecido abriram-lhe as portas do cinema italiano e fizeram-na a queridinha de diretores como Luchino Visconti, Vittorio De Sica e Patroni Griffi. Depois de encantar Paris vestida de Valentino, aos 30 anos mudou-se para Roma. “E o mundo se abriu”, conta ela. Passou três dias recitando para o diretor italiano Luchino Visconti e foi escalada para o filme Deuses Malditos. Sua carreira estava lançada. Antes do filme estrear, já tinha rodado outros dois, um deles, Candy, ao lado de Marlon Brando e do ex-Beatle Ringo Starr. Pontual, responsável e com uma beleza exótica, ela entrou para o ranking das favoritas dos cineastas italianos. Chegou até a assinar um contrato, em 1970, em que ganhava, por dia, o mesmo salário da atriz mais bem paga do cinema americano à época, Elizabeth Taylor. O hálito perfumado do jet set e as intrigas dos camarotes, no entanto, nunca a seduziram. Florinda é leve sem ser fútil e forte sem ser amarga. “Com’ è straordinária la vita” (“Como É Extraordinária a Vida”), de Dolcenera, é a canção que gosta de ouvir e cantarolar, e também é o que diz o seu sorriso. Liberdade de escolha foi o que sempre apregoou. Não por acaso, enche o peito na hora de dizer que quebrou todos os tabus: viveu por mais de uma década com a produtora de cinema italiano e condessa Marina Cicogna. Teve casos tórridos com astros de cinema. Para nós, contou apenas da intensa e rápida história vivida com Ryan O’ Neil. Em Ischia, cidade preferida das estrelas do cinema italiano nos 70, de noite, tirava toda a roupa e tomava banho de mar. “Eles não se conformavam, diziam: ‘lá vai a selvagem Flori tomar banho de noite’”, lembra. Atualmente, Bolkan cria cavalos ao lado da princesa Anna Chigi nos arredores de Roma; mantém uma ONG no Ceará; filma quando o roteiro lhe agrada; participa de séries de TV; e calcula quando vai dirigir seu próximo filme. “Tudo a seu tempo, agora não é uma boa hora de filmar no Ceará, meu cenário, sempre”, diz. Depois de dividir com ela uma tarde, dois chopes e uma bisteca de porco com salada de batatas no bar Lagoa, tradicional point do roteiro boêmio carioca, a conclusão é imediata: Florinda sabe viver. E é linda, claro.

Tpm. Quando Florinda Bulcão se tornou Florinda Bolkan? Foi no meu primeiro filme, Candy. O elenco estava reunido em Cannes e o filme prestes a ser lançado. E o meu sobrenome Soares Bulcão era quase impossível de ser pronunciado, daí todo o elenco começou a pensar junto: “Que nome ela vai ter, que nome ela vai ter...” E foram surgindo sugestões. De repente o Patroni Griffi [que mais tarde dirigiu Florinda em Numa Noite um Jantar] disse: “A Florinda é alta, sofisticada, vamos dar um nome exótico, como se ela fosse, sei lá, búlgara, alguma coisa Bol... como Bolkan”. Ganhou por unanimidade. Meu nome era o último dos últimos nos créditos. Mas já era Bolkan.

Você participou de uma boa fase do cinema, não é? Vivi a época áurea do cinema italiano, que foi de 68 a 72. Não porque eu participei, o período foi muito intenso, teve o maio de 68 na França, e na Itália também estavam fazendo coisas muito avant-garde. E eu entrei nessa maré de diretores fazendo filmes maravilhosos. Nesses cinco anos fiz Deuses Malditos, do Visconti, Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, do Elio Petri [que será exibido na 30° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, a partir de 20 de outubro] e que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro, e também Numa Noite um Jantar. Este último fez tanto sucesso que até hoje, quando entro num avião, a geração mais velha me cumprimenta.

Marlon Brando, Alain Delon, Marcello Mastroianni, Omar Sharif, você conviveu com todos eles e não namorou nenhum? O Marcello era muito meu amigo . Eu não fiquei íntima do Marlon Brando , fizemos só um filme juntos , nos cumprimentávamos. Mas teve um americanozinho por quem quase larguei tudo .

 
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