Moda é um assunto engraçado.
Dia desses, por exemplo, comprovei sua importância.
Por conta de uma pequena distensão muscular,
me vi obrigado a fazer um exame de ultra-som na perna
direita. Sem maiores novidades, ficha na mão,
fui encaminhado a um cubículo com um cabide e
um armário. A enfermeira me entregou a chave do
armário e um plástico lacrado com um tecido
dentro. Informou que eu devia vestir o conteúdo
do plástico com a abertura para a frente e me
deixou.
Tirei minhas roupas e examinei aquela veste, manto, jaleco
ou seja lá qual for o nome que se dá a esses
impessoalíssimos trajes de doentes e pacientes em
hospitais. Vesti o tal pano. Não há corte,
detalhes, recortes ou ajustes. Nem a mencionada abertura
foi encontrada. Uma veste meramente funcional, um sacão
com um buraco menor em cima e um maior em baixo, que serve
apenas para que o paciente não morra de frio,
para esconder parcialmente a parte mais exposta de seu
aparelho reprodutor e para preservar 5% de sua dignidade,
enquanto vaga desnorteado pelos corredores de clínicas
e hospitais.
Mesmo me sentindo ridículo e desamparado, me agarrei
aos tais 5% e me dirigi à sala de exames, deixando
minhas alinhadas roupas dormindo frias no tal vestiário.
No caminho, como que estrategicamente colocado para derrubar
o último resquício de auto-estima, um espelho
grande, desses impiedosos, ria dos passantes agarrado à parede.
Tive que parar e me olhar. O que vi foi um quadrado azul
sustentado em baixo por dois gravetos brancos. Uma triste
figura pronta para ser revirada e sem nenhum dos 5% que
imaginava ainda carregar da tal dignidade. Foi naquele
momento que me dei conta do quanto um designer, tecidos
apropriados e bem alinhavados podem fazer por nossas pobres
e esquálidas figuras.
Há quem ache, porém, que se trata de um simples
e mero segmento da economia, indevidamente alçado à categoria
de expressão artística, no qual arrumadeiras
e costureiros viram instantaneamente "stylists" ou "fashion
designers", ganhando títulos na razão
diretamente proporcional à empáfia...
É para tentar decifrar enigmas como esses que a presente edição
da Tpm se materializou. Para perguntar o que talvez não tenha respostas,
mistérios que possivelmente expliquem por que a moda exerce
tamanho fascínio sobre o ser humano, muito especialmente sobre o gênero
mais interessante desta espécie: as mulheres.
Paulo Lima, editor
P.S. Numa edição dedicada à moda,
impossível não registrar com alegria que
um tema que vem sendo apontado, denunciado e debatido por
nós desde o lançamento da Tpm, ganhou agora
(cinco anos depois, é verdade) as manchetes dos
jornais no mundo inteiro. Tudo começou quando autoridades
de saúde pública da Espanha decidiram proibir
modelos esqueléticas de desfilar em passarelas do
país. Desde 2001, temos manifestado aqui nossa opinião
sobre a opressão e a violência do movimento
acéfalo que tenta impingir, a mulheres de todas
as idades e regiões do planeta, um padrão
estético construído a partir de ferramentas
avançadas de Photoshop e de inanição,
destruição de órgãos como estômago,
intestino, pele, fígado, etc.... e especialmente
da auto-estima. Numa de nossas edições recentes,
por exemplo, comparamos o IMC de refugiadas na Somália
com modelos da Fashion Week e o resultado foi similar e
alarmante. Discutir esse tipo de aberração é algo
mais importante que o mais importante dos assuntos. Até mesmo
que a moda. |