Loucura? Filosofia?
Às vezes em diálogos, às vezes lançadas ao vento, muitas frases de Estamira são poéticas, bem colocadas, numa eloqüência que espanta quem vê o documentário de Marcos Prado. Aqui, alguns trechos de seu discurso


“A MINHA MISSÃO, ALÉM DE SER ESTAMIRA, É MOSTRAR A VERDADE E CAPTURAR A MENTIRA. (...) NÃO TEM INOCENTES: TEM ESPERTOS AO CONTRÁRIO”

ISSO AQUI [O LIXÃO] É O DEPÓSITO DOS RESTOS. ÀS VEZES É SÓ RESTO, ÀS VEZES VEM TAMBÉM DESCUIDO. (...) CONSERVAR AS COISAS É MARAVILHOSO. LAVAR, LIMPAR E USAR MAIS, O QUANTO PODE. AS PESSOAS TÊM QUE PRESTAR ATENÇÃO NO QUE ELAS USAM, NO QUE ELAS TÊM. PORQUE FICAR SEM É MUITO RUIM”

“EU SOU PERTURBADA MAS LÚCIDA. EU SEI DISTINGUIR A PERTURBAÇÃO”

A SOLUÇÃO É O FOGO.
QUEIMAR TUDO E PÔR OUTROS SERES NO LUGAR.
E EU TÔ DENTRO, PODE QUEIMAR. SE FOR PARA O BEM, PARA A VERDADE, PELA LUCIDEZ DE TODOS, EU POSSO IR AGORA, NESTE SEGUNDO”

“SABIA QUE TUDO O QUE É IMAGINÁRIO EXISTE, E É, E TEM?

O porta-voz
Fotógrafo de formação, Marcos Prado é produtor de alguns dos documentários mais premiados dos últimos tempos, como Os Carvoeiros e Ônibus 174. Desde que decidiu acompanhar a vida de Estamira no Jardim Gramacho, ele a adotou como uma grande amiga, que mantém sempre amparada. Aqui, o diretor fala sobre ela — e sobre todas as discussões levantadas por seu documentário, que recebeu 24 prêmios em festivais no Brasil e no exterior.

Tpm. Como está Estamira hoje?
Marcos Prado. Ela está tomando muito remédio, mais dopada, perdeu aquele ímpeto de quando o filme foi feito. Quando eu me encontrava com ela era muito gratificante. Fomos criando uma amizade, falo com ela duas, três vezes por semana. Cuido de todas as maneiras que eu posso, ela não mora mais naquele barraco, tem uma casinha sendo construída. Minha vida mudou tanto, respirar e viver tudo aquilo, que eu não poderia me desligar.

O que ela achou do filme? Ela foi a primeira pessoa a ver e falou: “Marcos, tem vezes em que eu não me reconheço, mas eu sei que veio de mim, então acredito. Te dei a missão de revelar minha missão. Então não vou falar pra tirar ou colocar nada. Se você acha que é isso, é isso”. Eu entrei numa crise de consciência, achei que tinha de ser mais cuidadoso. E tirei várias coisas. Quando passei o filme em São Paulo dois anos atrás, não havia a parte em que ela briga com o neto. Mas depois pensei: “Não posso santificar a Estamira. Só colocar as coisas mágicas, poéticas. Ela não é só isso”. Então, voltei com os esporros, os filhos, o neto, a exposição toda.

E a família, o que achou? O Ernani, filho mais velho, que aparece um pouco como o vilão, me falou: “Eu sou isso aí mesmo, uma pessoa religiosa, crente”. Acho que ele não gostou da posição dele no filme, que é a do cara que não fala mais com a mãe, que acha que ela é possuída pelo demônio. Mas não se opôs. A família fica feliz por eu ajudar a mãe. Eu dou dinheiro todo mês, dei telefone, levei no meu médico. Foi um encontro maravilhoso que tive na vida.

Ela tem momentos muito eloqüentes. Onde ela aprendeu tudo isso? Eu sei que ela tentou fazer um supletivo uma época da vida. Mas virou mendiga, andava pelas estações de trem. Foi tão para o buraco que o lixão foi a maneira de se reconectar. Ela é inteligente, e essa linguagem faz parte disso. Não sei se ela leu coisas em algum lugar. Sei que sabe ler e escrever. Mas você encontra ali idéias profundamente filosóficas. O discurso dela tem conceitos milenares.

O filme foi premiado, mas também recebeu críticas negativas. Como lida com elas? O documentário ganhou 24 prêmios e foi traduzido pra francês, espanhol e inglês. Muita gente gostou. Mas também recebi críticas pesadas. Disseram que era antiético, que eu não poderia filmar alguém que não tem capacidade sobre si mesma. Quem disse isso não entendeu nada, porque ela sabe muito bem o que está dizendo. O filme gera debate. Não é pra divertir, é pra conversar, questionar, gostar ou não gostar.

Também disseram que o filme faz uma estetização da miséria. Li isso e acho um absurdo. Estetizar a miséria seria transformá-la numa coisa maravilhosa e não passar o recado, perder o valor. Não acho que isso acontece no filme. Estou mostrando que o lixo é lindo? Estou valorizando a miséria? O que é estetizar?

comente