
Você já parou para pensar para onde vai o lixo que sai da sua casa? Há 12 anos, o fotógrafo carioca Marcos Prado não só pensou como resolveu investigar — uma experiência que transformaria sua vida para sempre. Prado passou uma década acompanhando (e fotografando) o cotidiano dos catadores de lixo do aterro Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, no Rio, para onde são levadas as sete toneladas de lixo que os cariocas produzem diariamente. Além de dar origem ao livro Jardim Gramacho, publicado pela editora Argumento, o trabalho virou um filme — não sobre o lixão propriamente dito, mas sobre a trajetória da catadora que mais impressionou o fotógrafo: Estamira Gomes de Souza.
Quando começa o filme — com estréia marcada para 28 de julho em São Paulo — conhecemos Estamira, uma mulher em seus 60 anos, saindo do barraco onde mora em Campo Grande, subúrbio do Rio, em direção ao aterro. Ela anda a pé, pega um ônibus, viaja mais de uma hora, caminha outro longo trecho e finalmente chega ao local de trabalho — o mais insalubre que se pode imaginar. Poderia se tratar da história de uma brasileira pobre, comum, como tantas outras. Só que Estamira não tem nada de comum.
“A minha missão, além de ser a Estamira, é revelar a verdade, somente a verdade” é a primeira de uma série de frases estranhas e muitas vezes impressionantes que se ouve ao longo do filme. Minutos mais tarde, fica claro que ela tem um problema mental. Há anos, é acompanhada por psiquiatras da rede pública e toma remédios, o que explica suas falas muitas vezes sem sentido — e torna espantosas certas declarações, de uma profundidade que intriga.
A bruxa do lixão
Marcos Prado se interessou pela história de Estamira desde a primeira aproximação, quando foi pedir autorização para fotografá-la, no ano 2000. “Embora 90% das pessoas ali fossem trabalhadoras, gente pobre tentando sobreviver, também havia fugitivos da cadeia, traficantes, bandidos, gente que não queria aparecer. Como eu precisava fazer retratos, ela foi uma das pessoas a quem pedi autorização”, conta o diretor. “Ela se apresentou pra mim de uma forma muito mágica. Disse ‘senta aí que eu quero te contar umas histórias’. Fiquei fascinado desde o começo, e, falando com as pessoas em volta, vi que muitas a consideravam uma bruxa. Todas tinham noção de que era algo muito diferente do normal. Aquele linguajar não é comum.”
No filme, as imagens captadas no lixão seguem uma ordem cronológica, intercaladas por depoimentos de parentes, que reconstroem a história de Estamira. Juntando todas as peças, descobre-se que ela teve uma infância difícil — diz ter sido levada para a prostituição pelo avô materno, aos 12 anos, quando vivia em Goiás — e que sua mãe também tinha problemas psiquiátricos. Também descobre-se que se casou pela primeira vez aos 17 com o pai de seu filho mais velho, Ernani. Separou-se, casou-se de novo, teve mais uma filha, Carolina, e viveu dias de relativa prosperidade até aparecerem os primeiros sinais de insanidade — e perder a fé completamente. Religião, aliás, é o assunto que a tira do sério. O filme mostra dois momentos delicados sobre o tema: uma briga que ela tem com Ernani, que freqüenta a Igreja Adventista do Sétimo Dia e acha que a mãe é possuída por uma força demoníaca, e uma discussão com o neto de nove anos, que questiona por que ela não gosta de Deus — e por isso ouve os piores insultos da avó.
Estamira tem uma terceira filha, Maria Rita, que foi criada longe dela por iniciativa de Ernani. No filme, as duas estão novamente juntas — Maria Rita com 21 anos, muito carinhosa com a mãe e ressentida do tempo que passou longe dela. “Ela merece muita coisa, e vai conseguir ainda”, diz a moça. Por mais paradoxal que possa parecer, trabalhar no lixão, seguramente o pior lugar da sociedade civilizada, foi o que devolveu certa dignidade a Estamira, depois de um período em que ela mendigou nas ruas. “Nunca tive sorte. A única sorte que tive foi conhecer o senhor Jardim Gramacho”, diz a própria. O diretor do filme acha que faz sentido, apesar de ter visto de perto o quanto a vida ali é difícil — Estamira passava 15 dias no lixão, sem voltar para casa, dormindo ao relento e sem tomar banho. “No lugar para onde vai tudo aquilo que a gente joga fora, ela começou a se afirmar novamente, a fazer amigos, conseguir algum dinheiro”, diz Marcos Prado. O diretor ficou amigo de Estamira, lhe dá ajuda financeira e acompanha preocupado seu tratamento, especialmente depois que ela parou de trabalhar (desde o ano passado, os catadores não têm mais acesso ao aterro). “Tem oito meses que ela está fora do lixão, longe de uma ocupação, do contato social. Para mim, ela tende a piorar. Não sou médico, não sei se é certo ou não o remédio, mas acho que ter parado pode acentuar esse distanciamento social”, acredita ele.
A própria Estamira se mostra muito consciente de seu tratamento — e, no filme, critica exaltada os remédios que, segundo ela, são distribuídos aleatoriamente. “Eles estão dopando quem quer que seja com um só remédio. O Diazepan, se eu tomar, fico mais louca ainda”, ela afirma, trazendo à tona a discussão sobre a eficácia dos tratamentos psiquiátricos. Não à toa, o filme foi parar em universidades e foi elogiado por integrantes do movimento antimanicomial. O Ministério da Saúde também vai exibi-lo em 600 Caps — os Centros de Apoio Psicossocial da rede pública (um deles, o de Campo Grande, freqüentado por Estamira). “Tem muita coisa acontecendo, acho que o filme ainda vai virar muita coisa boa, como a própria discussão do que é loucura e o que não é”, aposta Marcos Prado. “A dona Estamira vai toda semana às consultas, quer se tratar, tem noção. Não é uma louca desconectada do mundo. Loucos somos nós.”
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