“A QUESTÃO NÃO É SÓ A MULHER NA PROPAGANDA: NO MUNDO INTEIRO, A MAIOR PARTE DA PUBLICIDADE QUE SE FAZ HOJE NÃO É DE BOA QUALIDADE”

Vivemos uma busca frenética pela beleza. Qual a responsabilidade da propagando nisso? Não é a publicidade que molda o comportamento das pessoas: ela só detecta os movimentos sociais. Como a primeira busca do publicitário é o entendimento — um anúncio precisa, antes de tudo, ser entendido — a propaganda não poder ser vanguarda, embora utilize elementos da arte. Ela procura captar o que acontece na sociedade. E não acerta sempre. Na comunicação em massa, muitas vezes se opta por certezas que são estereótipos, muitas vezes já superados. Para mim, pertinência e originalidade são a grande busca.  As perguntas devem ser sempre estas: isso é pertinente? E é original?

De onde surgiu essa moda dos peitões no Brasil? Estamos só copiando um padrão estrangeiro? Esse padrão é da sociedade norte-americana. Eu acho que vivemos uma das maiores crises de vulgaridade que a humanidade já viu. Assim como Andy Warhol profetizou que todos teriam seus 15 minutos de fama, eu costumo brincar que todos serão vulgares por algumas horas. Mas isso está começando a encher a paciência das pessoas, está em desgaste. Então, mesmo que as brasileiras tenham importado essa estética do peito grande, apesar de esse padrão ter se multiplicado em muitas pessoas expostas na mídia, não acho que é um desenho estético tão sincero. É uma moda, vai passar. Um privilégio da sociedade brasileira é a miscigenação. Nas palestras que dou lá fora, sempre digo que moro no último país do mundo que tem mulher bonita no ponto de ônibus. A beleza em certos países se concentra onde estão os ricos, bem cuidados.  Aqui não: a miscigenação democratizou a beleza. 

Qual a imagem mais remota que vem à sua mente em relação ao peito de uma mulher? Quando eu tinha sete anos, no segundo ano primário, tinha uma professora chamada Daniela, que deveria ter uns 19 anos. Eu lembro que achava muito bom quando ela abaixava nas mesas, e dava para ver alguma coisa no decote. Então, foi nessa época, muito antes da adolescência, a primeira vez em que tive uma visão não maternal de um peito. Escrevi um comercial de bombom que era exatamente assim: meninos de sete anos observando mulheres mais velhas.

Para um garoto da sua geração, ver uma mulher nua pela primeira vez deveria ter um impacto que um menino de hoje não vai experimentar, tamanha a exposição e informações sobre sexo. Isso é ruim? De certo modo, sim. O prazer da descoberta é mais gratificante do que o prazer da entrega. Dar uma batalhadinha pra conseguir as coisas dá a elas um sabor especial. De mão beijada, fica facinho, e é uma pena. Fica mais difícil construir universos de sonhos. Da mesma maneira que não era fácil olhar um peito pela primeira vez, o rapaz tinha que pensar mais em como se dirigir à menina, como agradar. Hoje é tudo mais prático. As relações estão muito prêt-à-porter.

Essa saturação de mulher pelada vai levar a quê? Tudo o que é radical é sempre ruim. Então, não acho que o mundo não tenha que ter uma pitada de vulgaridade. Seria chato um mundo todo certinho. O que não pode é que a exceção, essa pitada, se transforme em regra.

Homem se importa com silicone ou tanto faz se o peito da mulher é natural ou não? Isso é muito pessoal. Eu acho muitíssimo elegante mulher que começa a ter cabelos grisalhos e não pinta, por exemplo. Acho elegantíssimo. Então, por aí, você já percebe como eu sou. Acho que o quanto se puder manter natural é melhor. Mas não sou contra as pessoas recorrerem à cirurgia plástica, se isso fizer bem. Não quero ser o “xenófobo” da estética, dizer que não pode. É uma decisão individual. Mas tem tantas maneiras de conviver bem com seu físico, acrescentando essa experiência do tempo vivido.


 
// home // 01
// comente