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Não é culpa de ninguém.
Alguém tem uma morfina aí? Obrigada.
Alguém tem fogo, uma taça de vinho?
Obrigada. Estava tudo horrível, era assim
que tinha que ser. Ninguém se escutava,
todo mundo só escutava a si mesmo. Ecos
deturpados de algo que foi um grande amor se
dissolvendo em uma nuvem de incompreensão,
desconfiança e hostilidade. Dói,
dói, dói como abrir o peito e arrancar
um órgão vivo sem anestesia. Paralisada.
Observando tudo, morrendo de dor, mas sem poder
fazer nada. Chega uma hora em que lutar só serve
para levar à loucura. E na loucura eu
já cheguei, obrigada. Estou é tentando
sair dela. Muitas coisas na cabeça, muitos
grandes projetos, eu estou bem, eu estou BEM.
Vou me concentrar em outras coisas, vou realizar
tudo aquilo que a relação que me
consumia não permitiu. E vou deitar sozinha
na cama à noite e ver que agora durmo
em um deserto. E, depois de uma semana, vou desistir
de dormir na cama e dormir no sofá, em
companhia da televisão, toda torta, suando
no couro vermelho, mas não vai adiantar,
eu vou dormir mal, acordar mal e ver a cama intocada
e me sentir ainda mais sozinha. E a casa, aquela
casa toda, o nosso lar, o nosso templo construído
pouco a pouco, peça a peça, e vai
ficar tudo ali, morto, e o corredor, o apartamento
que nós escolhemos juntos, será como
uma zona fantasma na casa fantasma, e eu percorrerei
o corredor fantasma tocando as paredes e sentindo
cheiros que não estão mais lá com
lágrimas que nunca conhecerão as
minhas faces escondidas nos olhos sem escorrer.
E todos os nossos planos, porque um casal sempre
tem planos, ficarão lá sem crescer
na Terra do Nunca pra sempre. Um casal separado
não tem mais nada a dizer, mas quer dizer
tudo pra tentar arrumar tudo de errado. Um casal
separado não quer mais se ver, mas quando
se vê sente que a chama morta ainda arde
e dói. E nunca vai parar de arder. Um
casal separado descobre que, de uma maneira errada,
será eterno. Eterno no fracasso, mas eterno.
E tudo aquilo que um dia foi a sua vida se dissolverá no
passado e você nem lembrará direito
como foi, só lembrará na cabeça,
não no peito. O peito vai estar ocupado
com outras coisas. Isso se você tiver a
sorte de ainda ter um coração.
Porque às vezes a dor é tão
grande que o coração pára
e a gente fica amarga pra sempre e deixa de acreditar
em tudo. Nada passa, diria uma amiga minha. Nada
passa e a gente vira um amontoado de todas essas
coisas. Nada passa. Ainda bem. Senão não
valeria a pena.
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