“... Uma semana mais tarde, era meu aniversário. Sentei num café, pedi uma garrafa de champanhe e brindei sozinha, bem como eu gosto, a meus setenta e dois anos.” A frase está em Quase Tudo, o livro de memórias que Danuza Leão lançou no fim do ano passado, pela Companhia das Letras. O trecho diz muito. Não só porque revela a idade de Danuza, coisa que até então todo mundo queria saber e ela nunca contava, mas porque mostra exatamente como ela mais gosta de ficar: sozinha.

A história de Danuza todo mundo conhece. Ela foi a primeira modelo brasileira a desfilar em Paris, foi casada com um dos homens mais poderosos da imprensa brasileira (Samuel Wainer, com quem teve três filhos), teve mais dois maridos depois dele (Antonio Maria e Renato Machado), perdeu um dos filhos (o também jornalista Samuca), foi dona de loja e relações-públicas de boate, virou colunista de jornal e autora de best-sellers.

Hoje a rotina se divide entre textos para o jornal, palestras, eventos de divulgação do livro... ou uma das milhares de coisas que ela inventa para fazer no Rio de Janeiro, onde mora — sozinha. Homens ainda existem (um dos trechos mais comentados do livro é sobre uma noite que ela passou recentemente com um desconhecido em Paris). Maridos, nunca mais. Ela se acha independente demais para dividir a casa com alguém. Prática, bem-humorada, franca, ela choca as feministas ao declarar que “mulher é muito chata”. Mas dá uma lição de liberdade, para eles e elas.

Tpm. Segundo o IBGE, a maioria de separações no Brasil é determinada pelas mulheres. Por outro lado, estamos sempre querendo casar de novo. Mulher tem dificuldade de ficar sozinha?
Danuza Leão. Eu acho muito natural que as mulheres tenham mais coragem de ir embora, e que queiram arranjar outro homem. Se não deu certo com esse, pode dar certo com outro. Mas a coisa mais difícil de mudar é essa busca do príncipe encantado. Nunca vi em nenhum livro ou revista que algum homem estivesse procurando sua princesa encantada. Mas nós, sempre. Mesmo a geração mais novíssima de todas continua com essa coisa. Mulher quando se separa diz “pois é, não deu certo, mas continuo procurando o homem certo, o meu príncipe”.

Você já foi casada e feliz assim. Por que hoje cultivar a solidão? De vez em quando eu bem que gostaria de ter um homem do meu lado. Mas me convenci de que sou muito independente, quero muito fazer minhas coisas do meu jeito. Eu gosto de escolher aonde vou, em que restaurante vou comer. Talvez seja egoísta da minha parte, mas realmente não quero ninguém que me diga o que fazer. Para ser desse jeito, a pessoa não pode ter homem do lado.

Sua geração foi preparada para ser esposa. De onde vem tanta independência? É uma independência que nos foi dada, a mim e a minha irmã, por meu pai. Uma coisa de educação. Se os pais valorizam certas coisas, se dizem que é para baixar a cabeça e aceitar o que o homem diz, assim vai ser. Comigo não foi assim. E eu jamais embarquei nessa história de feminismo. Anos atrás, houve o projeto de uma revista só feita por mulheres e me convidaram pra trabalhar. Nem pensar! Não me meto nessas coisas. Essas liberdades a gente adquire individualmente. Não adianta um movimento.

Como foram suas separações? Foi tudo sempre prático, sem nenhum drama? Foi sempre com muito drama, muito sofrimento, como todas, eu acho. Eu tenho a ligeira suspeita — ligeira, não é uma certeza — de que eu também não me caso há muito tempo porque sei como vai ser a separação. Que é inevitável, né?

E fidelidade? A solução é a gente esquecer essa parte? Eu não conheço casamento aberto que tenha dado certo. Você conhece? Eu, quando estou com um homem, simplesmente não consigo olhar pra outro. Sou absolutamente fiel. Não sei se é uma coisa minha ou de mulher. Para mim, o grande drama da traição é a mentira, a falsidade. O marido dizer que tem reunião e ir se encontrar com outra mulher; a mulher dizer que vai ao cabeleireiro para ver o amante... É impossível conviver com a mentira. »»»

 
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