Editorial Tpm53
O ser humano só cresce na dor.

Dói mas é gostoso.

Entre a dor e o nada, fico com a dor.
 
ANESTESIA


Seja enraizada na filosofia, seja na chamada sabedoria popular de pára-choque de caminhão, a humanidade parecia concordar sobre os inúmeros aspectos positivos contidos na dor. Mas parece que algo está mudando quando observamos de que forma as pessoas, em especial as do sexo feminino, têm encarado a experiência da dor nos últimos tempos. Por força das drogas modernas ou por uma espécie de redoma que o mundo dito civilizado se esforça em construir em volta de seus habitantes, ao que tudo indica, estamos fugindo desesperadamente de qualquer coisa que se assemelhe ao desconforto e ao amargo da dor. A dor física, a dor de envelhecer, de ser rejeitado, de não sermos ou termos o que não somos e não temos, da noção de que nossa passagem por esta dimensão é efêmera... tudo pode doer muito conforme a maneira que encaramos os fatos.
Se assim, encontrando formas artificiais para desviar da dor, poupamos nossa alma e corpo de um desconforto importante, talvez estejamos nos distanciando cada vez mais da riqueza e da solidão da condição humana, do fato inexorável de que somos imperfeitos, de que não temos um botão ou comprimido que altere definitivamente a ordem das coisas e que reprograme o rumo dos milhões de átomos que interagem para formar o mundo, nossas vidas e nossos destinos.
É sobre as diversas formas da dor, esta sensação tão incômoda quanto rica, que tratamos na presente edição da Tpm.
Pensar não dói.

Paulo Lima, editor