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Coffee and bundas
A apenas alguns quarteirões dali, bem no centro de Santiago,
o planeta das mulheres ganha outra conotação.
Entramos em um café e levamos um susto. Mulheres de
minissaia muuuito curta (aparece a calcinha e quase mais) servem
cafés para homens, que bebem olhando para a bunda delas.
Os “cafés com perna” são uma tradição
no Chile. E, entre um copo de café e uma olhada em uma
bunda aqui e ali, os homens falam de política. E bem
de Michelle. “Acho que um governo feminino é ótimo.
As mulheres são menos corruptas”, dizia o engenheiro
Ivan Ribas, 36, enquanto olhava para uma bunda no Café Haiti.
O taxista que nos pegou no aeroporto concorda. “Claro
que votei em Michelle. Não somos mais machistas. As
mulheres vão ser ótimas no governo porque sabem
cuidar de várias coisas ao mesmo tempo. Trabalham, cuidam
da casa, fazem tudo.” Cláudio Gonçales
conta que sua mulher trabalha. Mas que ele jamais lava a louça.
Muy flacas
O engraxate Elias da Costa é outro defensor de Michelle. “Tenho
muito orgulho em falar que a presidente do meu país é mulher.” Ele
também apóia o ministério composto
por metade de mulheres e metade de homens. Parecia um líder
feminista encarnado. Até soltar a pérola: “O
bom de ter mulheres no governo é que elas não
gostam de sair e farrear tanto quanto os homens”.
Ok. Depois dessa, seu Elias solta que eu e a fotógrafa
Renata Ursaia não parecíamos brasileiras. “As
brasileiras são mais formosas, bonitas, vocês
são muy flacas.” “Quer dizer que a gente é feia?” “Sim,
vocês são feias. Mas não tem problema.
Eu não ligo.”
O próximo passo foi encontrar Milly Garcia, 33,
jornalista chilena, prima de um amigo querido. Milly é muito
parecida com a que temos aqui (a nossa diretora de Redação).
Assim como a brasileira, gosta de discutir política.
E fala à beça. Milly levou sete amigas para
conversar com a gente em um restaurante. As meninas, todas
inteligentes e politizadas, disseram na hora que não
votaram em Michelle. “Eu sou de esquerda, mas não
votei nela. Colocar mulher presidente e fazer um governo
com paridade é marketing”, definiu Milly,
no que teve o apoio de quase todas as amigas. “Não é porque é mulher
que vai ser boa presidente. No dia em que tivermos igualdade
mesmo, a questão do gênero não vai
importar mais”, disse a jornalista Consuelo Gunther,
33. Foi uma noite de risada e bebedeira. Falamos de política.
E, claro, de homens. Nada diferente daqui. Para elas, o
mundo continua machista. Todas moram sozinhas, se bancam.
As que são casadas cuidam da casa. “Os homens
só fazem tarefas que nós mandamos fazer”,
grita Consuelo. “Então a verdade é que
a gente manda nos homens?” “Mandamos, claro”,
diz a moça.
No melhor estilo Sex and The City concluímos
que o poder feminino pode gerar um monte de incoerências,
mas a gente manda, sim. Em um país, em uma casa,
ou, simplesmente, na gente mesma. Cuidado, cabrones!
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