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Ela é uma mulher separada que criou os filhos sozinha.
Apesar de morar em um país ultracatólico, se
declara agnóstica. É tão provocadora
que assume publicamente que “já cometeu todos
os pecados capitais”. Até parece que estamos
falando de uma amiga nossa daquelas mais radicais. Só que
a moça descrita acima foi eleita dia 15 de janeiro
presidente do Chile.
O que parece absurdo (de bom) é a pura verdade. Michelle
Bachelet é o primeiro presidente do nosso sexo a ser
eleito na América do Sul. É filha de comunistas
e morou com os pais no exílio durante o regime de Pinochet.
Socialista, já foi ministra da Defesa do seu país
(sim, ela comandava o exército!) e montou um governo
em que 50% do ministério é composto por mulheres.
E não se trata de cargos café-com-leite: há mulher
comandando a Economia, o Planejamento e a Defesa.
Claro, a vitória de Michelle empolgou mulheres do mundo
todo. E por aqui não foi diferente. A redação
da Tpm ficou histérica com
a notícia. Trocamos e-mails comemorando a vitória
de nossas colegas latino-americanas e despencamos até o
Chile para tentar entender o que se passa por lá.
Fomos atrás de respostas para algumas perguntas. Como
os homens estão reagindo? Será que estão
com raiva? As mulheres estão na rua comemorando? Esse é de
fato um país comandado por mulheres? Como isso foi acontecer
justo em um lugar conservador, onde o divórcio só foi
aprovado em novembro de 2004?
Elas ganharam!
Impossível ser mulher e não chegar ao país
tomada pela empolgação. A alegria aumenta quando
compramos o jornal The Clinic, periódico moderno
e quinzenal. O título é: “Ganharam”.
E a descrição do dia da vitória começa
assim: “No domingo 15, perto das sete, as pessoas começaram
a sair pelas ruas. Até as buzinas pareciam gritos de
mulheres. Além das análises políticas,
estava claro nas ruas que as principais vencedoras eram elas.
Se via uma alegria extraordinária. Os machos abraçavam
as mulheres dando parabéns... As meninas saltavam com
os braços para o alto deixando balançar seus
peitos”.
Emocionante. Mas, em Santiago, descobrimos um monte de contradições.
Em vez de encontrar homens apavorados com a vitória
das mulheres, conversamos com machos felizes. E encontramos
garotas politizadas que não votaram em Bachelet por
achar que homens e mulheres são iguais e você não
deve votar em uma mulher só porque ela é mulher.
O fato é que o Chile respira política. É um
assunto sobre o qual todo mundo fala. “Estamos exultantes”,
disse a subsecretária de Desenvolvimento Regional
e Administrativo, Andréa Delpiano, que andava pelo
Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, ostentando
um tailleur rosa e cercada de jornalistas e populares. “Olá,
ministra”, muitos cumprimentavam. Andréa foi
ministra dos Direitos da Mulher no Chile entre 2000 e 2001. É a
pessoa perfeita para falar sobre o poder feminino que tomou
conta do país. “O Chile é um país
muito machista, mas nos últimos anos avançamos
rápido”, diz. “Acho que os homens já perceberam
que as mulheres têm capacidade para assumir os cargos
de poder.” E será que mulheres como Andréa,
quando estão no poder, são diferentes dos
homens? “Acho que temos a vantagem de sermos novas
no poder. Isso significa que não temos vícios
e também que entramos com muita vontade de fazer
um bom governo.” E elas estão felizes? “O
que aconteceu no Chile é um luxo.” Mulheres
no poder são assim. Usam rosa, falam “isso é um
luxo” e saem se equilibrando em cima do salto alto
para um encontro com a ministra da Economia. Sim, parece
que estamos no planeta das mulheres.
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