Durante uma conversa com a professora de
rádio, na Universidade Metodista de São Paulo,
um grupo de oito alunos do curso de jornalismo teve uma idéia:
criar uma rádio comunitária dentro de uma penitenciária.O
que era para ser apenas um trabalho de faculdade acabou transformando-se
num projeto pioneiro dentro dos presídios brasileiros.
Em setembro do ano passado, o programa Rádio Espaço
Livre estreou nos alto-falantes da Penitenciária Feminina
da Capital (PFC), na zona norte de São Paulo. Sem
patrocínio nem apoio da universidade, os estudantes
tiraram do próprio bolso os cerca de 5 mil reais para
comprar os equipamentos. “Ninguém acreditava
no projeto e não confiava no público para o
qual ele se destinava”, afirma Gabriela Araújo,
uma das idealizadoras.
Com o objetivo de entreter, educar e levar informação
para as mulheres que estão atrás das grades,
o Rádio Espaço Livre é coordenado por
15 detentas. Atualmente, a PFC abriga por volta de 658 mulheres – 248
a mais do que a sua capacidade máxima. Elas são
responsáveis por tudo: da programação
e confecção das reportagens à locução
e transmissão do programa. A atual diretora do presídio,
Ivete Barão de Azevedo Halasc, foi uma das primeiras
entrevistadas. “Elas fizeram uma série de questões
sobre minha gestão e os projetos em andamento”,
afirma. Reportagens sobre saúde, cultura e astrologia
também estão na pauta. Três das doenças
mais comuns entre as detentas, a Aids, a tuberculose e a
leptospirose são assuntos recorrentes, sempre com
a participação de algum médico especializado.
No quadro “Caça-talentos”, as outras internas
são convidadas para cantar, contar piadas ou contar
suas histórias. É um sucesso. Mudanças
no comportamento das participantes da rádio também
foram percebidas. “Antes extremamente agitadas e briguentas,
algumas tornaram-se mais pacíficas e sociáveis”,
salienta Gabriela. Segundo a diretora, a idéia dos
estudantes estimulou a integração das detentas,
a leitura crítica por parte delas dos meios de comunicação,
a cidadania, o resgate da auto-estima, o crescimento individual,
a criatividade e o trabalho em equipe.
O projeto teve início da seguinte
maneira: os estudantes coordenavam uma oficina quatro vezes
por semana durante duas horas diárias. Após
a conclusão da primeira
parte, as participantes receberam um certificado de conclusão
na Oficina de Capacitação em Rádio,
expedido pela Universidade Metodista. Agora, os recém-formados
jornalistas visitam o presídio duas vezes por semana,
e as internas se tornaram mais independentes para conduzir
a transmissão. O sucesso é tanto que a população
da cadeia pede que os programas aconteçam mais vezes
e sejam mais longos. Atualmente tem duração
de 45 minutos e é transmitido uma vez por semana no
horário do almoço. “A imagem que a mídia
nos passa das penitenciárias não é nem
um pouco agradável. Quando você entra lá, é completamente
diferente do que espera encontrar”, esclarece Gabriela.
Além
deste, em Manaus (AM) existe um projeto semelhante, porém
ainda está em tramitação na Secretaria
de Cultura e de Justiça do estado.
|