Um amigo de quem gosto muito viajou o mundo profissionalmente por mais de 25 anos. Como fotógrafo, sua missão era tentar entender e retratar as diferenças e semelhanças entre pessoas e comunidades do planeta. Hoje, perto dos 55 anos, dois filhos, ele tem viajado menos: “apenas” cerca de cinco vezes por ano.

Há algum tempo, tive a chance de estar com ele e sua família na Califórnia, onde vivem entre as viagens. Uma das coisas que perguntei, enquanto conversávamos sobre suas experiências pelo mundo, foi quais as diferenças mais importantes que ele havia visto entre os países mais e menos desenvolvidos. Ele explicou que havia passado muitos anos pensando num critério para definir que países ou que comunidades poderiam ser consideradas  mais desenvolvidas. Sua resposta me intriga até hoje: o número de notícias sobre política na capa dos jornais e a forma como encaram e tratam seus velhos.

Segundo meu interlocutor, essas seriam boas referências. Muito mais do que apurar quantos carros, banheiros ou televisores a população tem em casa, ter as questões humanas e do dia-a-dia ocupando as manchetes dos jornais e, principalmente, uma forma respeitosa, digna e, mais do que isso, de admiração na hora de olhar para seus membros mais velhos definiria bem o estágio de desenvolvimento de uma comunidade.
           
A julgar por esses indicadores, aqui no Brasil estamos abaixo da linha do suportável. Menos até pela quantidade absurda de escândalos enlameados que disputam as capas de nossos jornais, e muito mais pela forma ignorante e desumana pela qual, quase sempre, os mais velhos são vistos, entendidos e tratados.
           
Com o auxílio inestimável da indústria da comunicação, quase que invariável e exclusivamente a serviço do mercado e do consumo e de um sistema de educação famoso por suas carências múltiplas, temos sido ensinados há décadas que ter pouca idade é por si uma prerrogativa de seres superiores, e que gente com mais de três, quatro ou cinco décadas de vida (pasmem), é, por definição, defeituosa e decadente.
           
Nesta, e em todas as edições de Trip e Tpm, por mais que estejamos inseridos na economia de mercado e que às vezes, involuntariamente, tenhamos errado, estamos nos esforçando para quebrar esse triste paradigma, mostrando que há poucas coisas mais interessantes e modernas neste mundo do que alguém que soube usar a passagem do tempo a seu favor e, muito especialmente, a favor dos demais.

 

Paulo Lima, editor