Olho nu

“FICAM PELADAS PORQUE QUEREM”
: PARA O FOTÓGRAFO
J. R. DURAN, VAIDADE NÃO OFENDE


por Ronaldo Bressane

O fotógrafo J. R. Duran tem fama de durão com as mulheres. Lacônico, vai logo mandando-as ficarem quietas e tirarem a roupa. E vasculha-as às vísceras, para a delícia de nós, comuns voyeurs. Para também a delícia delas mesmas, as exibidas. Em quase 30 anos de carreira, o catalão-paulistano já viu passar por suas lentes alguns dos corpos mais perfeitos do planeta. E não se cansa nunca de suas esculturas em duas dimensões. Casado, 53 anos, uma filha, editor da prestigiada revista Freeze e autor do romance policial Lisboa, ele adora ficar rodeado de beldades. E de helicópteros.

Vistos friamente, são mesmo objetos muito parecidos: uma sutil combinação de força e fragilidade, mobilidade e onipotência, tanto mais belas quanto mais inacessíveis – já intuía Coppola em sua coreografia de aeronaves em Apocalypse Now, ao som de "A Cavalgada das Valquírias", de Wagner. Presente em 9 entre 10 capas de revistas (estejam as moças nuas ou vestidas), para Duran as coisas são simples feito um clic: o que é bonito tem que ser mostrado. E ele jura que não é vaidoso nem entende nada de mulher. As aparências, já dizia Wilde, não enganam: “Só pessoas superficiais não julgam pela aparência”. Nosso caçador de valquírias assinaria embaixo.


Por que as mulheres topam tirar a roupa?
Porque querem. Ninguém tira a roupa porque não quer, desculpe a obviedade.

Mulher é, de fato, mais exibicionista do que homem?
Não. Mas acho que não tem nada a ver com as bancas de revistas. Se estivesse errada a equação das bancas, elas não venderiam. É a lei do mercado.

Acha que existe uma dinâmica tipo “homens querem desejar e mulheres querem ser desejadas”?
Acho que não. Teoricamente o homem é o caçador. Mas tenho visto muitas mulheres caçadoras. Isso não existe: as pessoas não precisam ser sempre a mesma coisa, todas as possibilidades existem em todos os sexos, não se pode agrupar uma característica humana por sexo – é uma simplificação que pode cair no estereótipo. O importante é as pessoas se sentirem bem.

Você acha que as mulheres precisam da aprovação de outro – um homem ou outra mulher – para se sentirem belas?

Acho que não. Elas sabem. Se fosse ao contrário, ninguém chegaria perto. As mulheres são mais belas. Dominam o mundo, mandam no poder. Ninguém quer saber dos homens! E não existe o inverso: não acredito que existam dois universos complementares. O mercado de mulheres é maior que o de homens – produtos de beleza, fogões etc. Acho que homens e mulheres querem ver mulheres.

Você fotografa há quase três décadas. Sente algum tipo de “evolução” na vaidade feminina, nesse período?
O contrário. Sou desencanado quanto a isso, talvez por causa da minha profissão. Potencializo as vaidades alheias ao máximo. Numa foto, as pessoas entram lindas e saem espetaculares – tudo para que tenha um resultado esplendoroso. Não sinto que nada mudou na vaidade humana, sempre foi isso. Sempre lidei com a vaidade em estado puro, isso nunca me incomodou. E, olha, estar bonito em uma foto é melhor que fazer uma cirurgia plástica.

“AS MULHERES SÃO MAIS BELAS.
DOMINAM O MUNDO, MANDAM NO PODER”


Qual a primeira imagem que vem à sua cabeça, pensando na vaidade feminina?
Estranhamente, é uma imagem masculina: um galo se exibindo no galinheiro. Se eu tivesse dois peitos, seria muito mais vaidoso.

O que é mais irritante na vaidade feminina?
Falta de sentido de humor. Gosto de trabalhar com mulheres bem-humoradas. Dois peitos e um sorriso é sempre lindo.

Qual a relação que você vê entre consumismo e beleza?

Nenhuma. Temos de pensar em termos de seres humanos. As pessoas gostam de se embelezar. A falta de vaidade é que pode ser estranha. O esculhambado é irritante! E o supervaidoso, o vampiro, é um cazzo também. Vaidade não faz mal a ninguém. Agora, o excesso é sempre ruim.

Outro dia li uma notícia dizendo que na China há garotas que quebram as próprias pernas para, quando operarem, ganharem uns centímetros. Que acha desses modernos sacrifícios que as mulheres fazem para se embelezarem?

Se sacrificar pela beleza é complicado. Mas sou um democrata dos sentimentos. Depende da mulher. Tem gente que compra carro amarelo: se te faz feliz ter um carro assim, tudo bem. Não se pode podar ninguém de buscar a felicidade, nem pelo exterior nem pelo interior. As aberrações existem em todas as áreas. Há quem beba, quem faça coisas lamentáveis... A beleza é uma questão de personalidade. Acredito que a vaidade independe da beleza. Já vi mulheres feias que se acham! E vice-versa. Kissinger, creio que foi ele, disse que o melhor elixir da juventude é o poder. A vaidade pode estar no poder, não só na aparência. A vaidade não é só se olhar no espelho.

Então não existe mulher feia?
Não. Existe mulher mal-resolvida.

E beleza demais, não cansa?
Não, mas estupidez sim.




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