Marina
não titubeia. Suas respostas são ácidas,
afiadas, dessas que cortam questões com a precisão
de facas Ginzu. Ao contrário do que acontece
com estrelas de primeira grandeza, plastificadas por
acúmulos de intervenções cirúrgicas,
as marcas do tempo estão todas ali em seu rosto,
sem maquiagem, sem vergonha, sem pudor. Ela não
parece uma menina. Parece uma mulher madura de pele
e cabelo bem cuidados e corpo sarado.
Mas o recado que vem da imagem à minha frente
não é: “Cuide-se! Use filtro solar!
Faça esfoliação! Malhe!”,
e sim, “Torne-se você mesma e tudo ficará
bem”. Uma lição, aliás, que
ela carrega de um de seus ícones: Nietzsche.
Agora, isso entendido, ela manda: “Cuide-se! Use
Filtro solar! Faça esfoliação!
Malhe!”. Porque essa Marina, aos 50, faz tudo
isso. Com vocês, Marina Lima, vaidosa e inteira.
Você foi muito assediada pela Playboy?
Sempre, e nunca passou pela minha cabeça aceitar.
O que mudou em 1999?
Depois dos 40, lidando com mil questões na análise,
saída de uma depressão, auto-estima baixa
e começando a levantar, acabei precisando de
grana. Como fiquei um tempo sem fazer shows, a coisa
apertou. Mas a decisão veio de um psicanalista,
que me disse que eu tinha que fazer por prescrição
médica [risos].
Ele disse isso?
Ele achava que eu estava me subestimando. Argumentava
que o Brasil tinha que me ver como ele conseguia me
ver. Então, quando ele disse “prescrição
médica”, pensei: “Bom, não
tenho mais argumentos”. Aí fui arquitetar
um plano. Como a gente, as mulheres, é danada!
Liguei pra uma advogada e disse: “Olha, eu quero
fazer Playboy”. Ela me perguntou se tinham
me convidado e eu disse que não. Ela foi até
a Playboy e eles tiveram interesse. Aí
começou a negociação, acertamos
o contrato e posei. Escolhi fotógrafo, tudo.
Foi na hora que quis.
E o que fazia você negar o convite no começo
da carreira?
Pudor. Pudor de parecer que eu estava me vendendo. Quando
você vai ficando mais velha tem uma série
de coisas que vão mudando de valor. E o que é
se vender? O que significa isso? Eu estava precisando
da grana, a troca era muito honesta. Mostro o meu corpo
e quero tanto por isso. Então estava vendendo
meu trabalho, que é o meu corpo, minha casca
que eu cuido há tanto tempo. Desde pequena tenho
uma relação forte com a energia do meu
corpo. Tive várias brigas durante a minha carreira,
com jornalistas, principalmente homens, que tentavam
me convencer de que minha música não era
tão importante, de que eu era apenas uma gatinha.
Eu até poderia ser uma gatinha, mas uma coisa
não invalidava a outra. Então tudo isso,
depois dos 40, não era mais um problema. Por
isso foi uma prescrição médica.
Eu queria ser uma mulher com mais de 40 que pudesse
continuar atraente, talentosa e profunda, e tudo o que
uma mulher pode ser. Eu queria poder ser tudo isso,
seria libertador. Depois da depressão, depois
de me virar para dentro como uma concha, achei que já
tinha pago um preço muito caro por esse questionamento.
Achei que podia tudo e sabia que merecia, que eu valia,
que eu podia ser tudo isso.
Qual a importância de se sentir desejada?
Dá segurança para a nossa colocação
no mundo. Naquele momento, por tudo o que eu te disse,
era importante sentir que eu ainda estava na ativa para
uma série de coisas, porque eu mesma não
sentia mais desejo por nada nem por ninguém.
O meu desejo, pelos outros e por mim, estava muito baixo.
Então isso acendeu de novo esse código
de paquera, essa coisa lasciva, da volúpia, que
estava muito apagado em mim, estava faltando há
um tempo.
É duro envelhecer?
Ser jovem é que é muito fácil.
Difícil é ser mais velha e ficar bem.
Eu me lembro que há uns 20 anos fui assistir
à peça As Lágrimas Amargas
de Petra von Kan, do alemão R. W. Fassbinder.
Fui no camarim e falei para a Fernanda Montenegro: “Você
é a pessoa mais contemporânea que eu conheço”.
Para mim ela é linda. Isso é saber adequar
os seus limites, seu físico, seus gostos e as
coisas profundas que a vida me dá.
Primórdios [atual show de Marina]
é o mais vaidoso de seus espetáculos.
Você usa vestidos, saltos altíssimos, ocupa
o palco inteiro e chega a transcender o palco. Essa
é a tua vaidade hoje?
Não. É o show que estou mais segura. Passei
por muitas coisas e todas valeram a pena. Não
sou mais uma pessoa que carrega ressentimentos. Algumas
coisas de que precisei sofrer, sofri mesmo, e paguei
por elas. A recuperação foi lenta. E a
questão não é vaidade, não
tô nem pensando nisso, tudo está junto,
tem uma coisa de inteireza. Não estou insegura
se posso mostrar tudo o que tenho, tudo o que aprendi,
meu talento, minhas conquistas. Quero mostrar quem sou,
não me sinto culpada por ser quem sou. Acho que
as coisas boas que consegui foram por merecimento.
E esse lugar em que você está hoje
é bom?
Ele é muito bom. Às vezes é confortável,
às vezes não é. Mas confortável
quase nunca é bom. Bom é trabalhar, é
sonhar, é ter planos.
Você se acha mais bonita hoje ou aos 20?
Sinceramente? Hoje. Sem dúvida alguma.
Leia a entrevista completa com Marina Lima na Tpm
# 50. Já nas bancas
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