A vaidade é a pele da alma

AOS 44, SEM GRANA E PRECISANDO RECALIBRAR A AUTO-ESTIMA, ELA POSOU NUA. A INICIATIVA MARCOU UMA REVIRAVOLTA EM SUA VIDA E CARREIRA. SEM ROUPA E SEM PUDOR, MARINA LIMA ENTROU NO SEGUNDO E MELHOR TEMPO DE SUA EXISTÊNCIA


por Milly Lacombe
foto Murillo Meirelles

Marina Lima é Marina Lima há 30 anos. Não é fácil, neste mundo cão e superficial de hoje, manter sua imagem pública intacta por três décadas. Em muito menos tempo, mitos são destruídos, carreiras deterioradas e ícones esquecidos. Paparazzi estão por todos os lados, a mídia está de olho e qualquer escorregão é notícia de primeira página. Construímos ídolos com a mesma rapidez com que destruímos espíritos. Mas Marina tem o dom de se manter atual. E inteira. Aos 50 anos está mais bonita do que nunca. E sabe disso. Quando invadi a sala do apartamento onde mora, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, dei de cara com uma vista fascinante. Rapidamente trocada pelo rosto brilhante, forte e limpo de Marina, que entrou me oferecendo café e água. Cinqüenta anos? Enquanto ela me servia café, vasculhei freneticamente minhas anotações para ver se não havia ali um engano. Cinqüenta anos? Sei não.
Sentadas no chão, falamos sobre vaidade, sobre envelhecer e sobre o ensaio que ela fez para a Playboy há seis anos, quando tinha, portanto, 44. Precisava abordar a questão porque, na minha cabeça, algumas mulheres, ainda mais fortes e intelectualmente picantes como ela, talvez não devessem posar nuas.

Marina não titubeia. Suas respostas são ácidas, afiadas, dessas que cortam questões com a precisão de facas Ginzu. Ao contrário do que acontece com estrelas de primeira grandeza, plastificadas por acúmulos de intervenções cirúrgicas, as marcas do tempo estão todas ali em seu rosto, sem maquiagem, sem vergonha, sem pudor. Ela não parece uma menina. Parece uma mulher madura de pele e cabelo bem cuidados e corpo sarado.
Mas o recado que vem da imagem à minha frente não é: “Cuide-se! Use filtro solar! Faça esfoliação! Malhe!”, e sim, “Torne-se você mesma e tudo ficará bem”. Uma lição, aliás, que ela carrega de um de seus ícones: Nietzsche.
Agora, isso entendido, ela manda: “Cuide-se! Use Filtro solar! Faça esfoliação! Malhe!”. Porque essa Marina, aos 50, faz tudo isso. Com vocês, Marina Lima, vaidosa e inteira.

Você foi muito assediada pela Playboy?
Sempre, e nunca passou pela minha cabeça aceitar.

O que mudou em 1999?
Depois dos 40, lidando com mil questões na análise, saída de uma depressão, auto-estima baixa e começando a levantar, acabei precisando de grana. Como fiquei um tempo sem fazer shows, a coisa apertou. Mas a decisão veio de um psicanalista, que me disse que eu tinha que fazer por prescrição médica [risos].

Ele disse isso?

Ele achava que eu estava me subestimando. Argumentava que o Brasil tinha que me ver como ele conseguia me ver. Então, quando ele disse “prescrição médica”, pensei: “Bom, não tenho mais argumentos”. Aí fui arquitetar um plano. Como a gente, as mulheres, é danada! Liguei pra uma advogada e disse: “Olha, eu quero fazer Playboy”. Ela me perguntou se tinham me convidado e eu disse que não. Ela foi até a Playboy e eles tiveram interesse. Aí começou a negociação, acertamos o contrato e posei. Escolhi fotógrafo, tudo. Foi na hora que quis.

E o que fazia você negar o convite no começo da carreira?

Pudor. Pudor de parecer que eu estava me vendendo. Quando você vai ficando mais velha tem uma série de coisas que vão mudando de valor. E o que é se vender? O que significa isso? Eu estava precisando da grana, a troca era muito honesta. Mostro o meu corpo e quero tanto por isso. Então estava vendendo meu trabalho, que é o meu corpo, minha casca que eu cuido há tanto tempo. Desde pequena tenho uma relação forte com a energia do meu corpo. Tive várias brigas durante a minha carreira, com jornalistas, principalmente homens, que tentavam me convencer de que minha música não era tão importante, de que eu era apenas uma gatinha. Eu até poderia ser uma gatinha, mas uma coisa não invalidava a outra. Então tudo isso, depois dos 40, não era mais um problema. Por isso foi uma prescrição médica. Eu queria ser uma mulher com mais de 40 que pudesse continuar atraente, talentosa e profunda, e tudo o que uma mulher pode ser. Eu queria poder ser tudo isso, seria libertador. Depois da depressão, depois de me virar para dentro como uma concha, achei que já tinha pago um preço muito caro por esse questionamento. Achei que podia tudo e sabia que merecia, que eu valia, que eu podia ser tudo isso.

Qual a importância de se sentir desejada?

Dá segurança para a nossa colocação no mundo. Naquele momento, por tudo o que eu te disse, era importante sentir que eu ainda estava na ativa para uma série de coisas, porque eu mesma não sentia mais desejo por nada nem por ninguém. O meu desejo, pelos outros e por mim, estava muito baixo. Então isso acendeu de novo esse código de paquera, essa coisa lasciva, da volúpia, que estava muito apagado em mim, estava faltando há um tempo.

É duro envelhecer?
Ser jovem é que é muito fácil. Difícil é ser mais velha e ficar bem. Eu me lembro que há uns 20 anos fui assistir à peça As Lágrimas Amargas de Petra von Kan, do alemão R. W. Fassbinder. Fui no camarim e falei para a Fernanda Montenegro: “Você é a pessoa mais contemporânea que eu conheço”. Para mim ela é linda. Isso é saber adequar os seus limites, seu físico, seus gostos e as coisas profundas que a vida me dá.

Primórdios [atual show de Marina] é o mais vaidoso de seus espetáculos. Você usa vestidos, saltos altíssimos, ocupa o palco inteiro e chega a transcender o palco. Essa é a tua vaidade hoje?

Não. É o show que estou mais segura. Passei por muitas coisas e todas valeram a pena. Não sou mais uma pessoa que carrega ressentimentos. Algumas coisas de que precisei sofrer, sofri mesmo, e paguei por elas. A recuperação foi lenta. E a questão não é vaidade, não tô nem pensando nisso, tudo está junto, tem uma coisa de inteireza. Não estou insegura se posso mostrar tudo o que tenho, tudo o que aprendi, meu talento, minhas conquistas. Quero mostrar quem sou, não me sinto culpada por ser quem sou. Acho que as coisas boas que consegui foram por merecimento.

E esse lugar em que você está hoje é bom?
Ele é muito bom. Às vezes é confortável, às vezes não é. Mas confortável quase nunca é bom. Bom é trabalhar, é sonhar, é ter planos.

Você se acha mais bonita hoje ou aos 20?
Sinceramente? Hoje. Sem dúvida alguma.



Leia a entrevista completa com Marina Lima na Tpm # 50. Já nas bancas

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