E,
quando está a fim, nada, surfa, anda de bicicleta,
patins. Academia? Jamais. E dieta também não:
“Meus pratos são de peão e faço
questão de qualidade. Faço a dieta do
comer bem”. Com 1,73 metro de altura, 54 quilos,
90 de busto, 62 de cintura e 90 de quadril não
é difícil ignorar dilemas de pobres mortais.
A guria pode.
Você se acha bonita?
Sim, me acho bonita.
E como se descobriu bonita?
Comecei a trabalhar como modelo aos 14 anos, meio que
sem querer, fazendo umas fotos por curiosidade e entrando
num concurso da M.Officer. Fui porque uma amiga me pediu
companhia até a inscrição no shopping.
Ela ficou de fora e eu fui chamada. Acabei na final
do concurso e levei a capa da Capricho. Ninguém
no colégio acreditou quando saiu a revista. A
partir daí, comecei a chamar mais a atenção
dos colegas. Foi pelo olhar dos outros que comecei a
me achar bonita.
Obviamente, beleza põe mesa. Mas você tem
a preocupação – preocupação,
aliás, de quase toda modelo e ex-modelo –
de não ser só “um rostinho bonito”?
Eu nunca tive essa encanação de ser “mais
do que um rostinho bonito”. Sempre soube que sou
um rostinho bonito, mas também sempre soube que
sou inteligente o bastante para saber que rostinhos
bonitos envelhecem na mesma proporção
que outros mais belos nascem a cada dia. Acho esse clichê
tão excludente quanto aqueles que associam a
pobreza à marginalidade ou a falta de educação
à falta de cultura e por aí vai. Acho
tudo isso alienante.
Como você definiria vaidade?
O que é uma mulher vaidosa? Vaidade ou doença?
Vaidade é natural no ser humano, denota apreço
por si mesmo. É saudável! Agora, quando
ela provoca na mulher um desejo de ser outra pessoa,
eu acho doentio, perigoso e triste. Um verdadeiro pecado
capital!
“ACHO QUE AO POSAR NUA TEMOS MAIS VONTADE
DE IMORTALIZAR A JUVENTUDE E O VIÇO DO QUE SER
OBJETO DE DESEJO INDISCRIMINADO"
”Por que você nunca topou fazer
Playboy? Soube que você recebeu uma proposta
recente, e soube também que era uma proposta
irrecusável. Não te atrai mexer com a
libido do país inteiro?
Não tenho problemas com o nu, aliás acho
poético o encontro entre a luz e a pele. Nunca
fiz Playboy porque não é uma
revista de arte. Adoraria propor um ensaio bonito, sensível,
feminino e que não tivesse a obrigação
de ter tantas fotos de bunda ou de peitos. Sensualidade
não está necessariamente naquilo que é
revelado. Quanto à proposta foi muito boa, mas
não era irrecusável.
Segundo teóricos, a mulher precisa da aprovação
do macho para se sentir bonita. Seria uma forma de auto-afirmação
da própria beleza?
Acho isso meio viagem. Nós mulheres somos erotizadas,
gostamos de imagens, somos estetas, românticas
e vaidosas. Acho que ao posar nua temos mais vontade
de imortalizar a juventude e o viço do que ser
objeto de desejo indiscriminado.
Você tem medo de envelhecer?
Medo é uma palavra que me incomoda, mas envelhecer
não deve ser fácil. É duro observar
que sua pele está perdendo o viço, que
a agilidade e o reflexo já não são
mais os mesmos e que, no entanto, a cabeça continua
em perfeita condição. Mas isso acontece
com todo mundo. É a natureza sempre soberana.
Envelhecer também pode ser agradável,
no entanto. Por isso, observo sempre as pessoas mais
velhas e delas tiro grandes lições. A
velhice deve ser bem aproveitada, rodeada de amigos,
livros e, se possível, família e boas
lembranças. Tenho certeza de que terei muito
o que reviver fuçando minha galeria de bons momentos.
Qual é o seu maior medo?
Medo de perder as pessoas que amo, de ver uma guerra
civil, de ver a natureza sendo destruída, de
ficar doente, de não viver um grande sonho, de
não dar tempo de alguma coisa.
Quem são as mulheres que você admira,
fisicamente e intelectualmente? E homem? Quem
é o seu tipo?
Fernanda Montenegro, Frida Kahlo, Angelina Jolie, Letícia
Sabatella, minha mãe... Meu tipo de homem é
aquele que não passa dos limites da sua vaidade:
é limpo mas sem perfume. Discreto mas comunicativo.
Careta mas sem ser chato. E bonito sem ser perfeito.
É aquele que tem beleza e verdade no olhar. Voz
bonita mas sem falar demais. Enfim, qualquer um que
me surpreenda no detalhe e não no plano geral.
Você sairia com um homem feio? Tem algum ex-namorado
que foge do padrão no seu currículo?
Sim, sairia e já saí com homens feios.
Acredito que nós mulheres aceitamos e às
vezes até gostamos de defeitinhos nos homens.
Sei lá, rola uma espécie de afeto exacerbado
que inaugura um outro olhar. Vejo, por exemplo, homens
preocupados com a calvície. Acho um charme homens
com entradas ou calvos. Pera aí, não descarto
os cabeludos! O que importa é o intangível,
o recheio e o gingado. Sacou? Mulher também gosta
de ritmo!
Você gosta de ser famosa? Sente prazer
em ser reconhecida?
Gosto de ser reconhecida pelo que sou e não por
uma invenção alheia. Por meu trabalho,
pelo qual me empenho tanto, pelo que penso e por todas
as vezes que desisto de pensar e me lanço na
pura e cristalina emoção. Gosto de ser
reconhecida pelo que falo, quando falo, e não
pelo que dizem que falei. Gosto de ser famosa nos dias
em que estou expansiva. Não gosto de ser quando
preciso ficar sozinha. Sei também que gostar
ou não gostar não muda nada, é
tudo retórica. Lembro sempre do meu pai me dizendo:
se te dão um limão, faça uma limonada.
É assim que aprendo todos os dias a gostar de
tudo a que me dedico.
O que você sente ao se ver, por exemplo,
na Caras?
Nada.
Fama está entre as suas vaidades?
Desse mal eu não morro.
E inteligência? Você é intelectualmente
vaidosa?
Não sou uma guria intelectualizada,
mas sinto orgulho da minha inteligência. Me orgulho
da minha trajetória e até mesmo quando
estou p... da vida com coisas que me rodeiam, como paparazzi,
gosto de saber que eu viveria tudo outra vez.
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