A garota da capa

FERNANDA LIMA VEIO AO MUNDO PARA PROTAGONIZAR, SER A BELA DA HISTÓRIA. E SABE DISSO. MAS SEM FALSA MODÉSTIA: “NUNCA TIVE A ENCANAÇÃO DE SER MAIS DO QUE UM ROSTINHO BONITO”

por Karla Monteiro    foto Juliana Morais

De cara, você se sente pequena e sem graça. É isso o que categorias de mulheres como a de Fernanda Lima (categoria “mais de um metro de perna”) fazem com você em um primeiro momento. Em um segundo momento, provocam reflexões como: “Dane-se, deve ser uma anta”. Mas não é o caso aqui. “Sempre soube que era um rostinho bonito, mas também sempre soube que era inteligente o bastante para saber que rostinhos bonitos envelhecem”, diz Fernanda, logo de saída. Com frases do gênero, a gaúcha de Porto Alegre, 28 anos de idade e 14 de carreira, entrega a personalidade: direta e franca. Ou melhor, “curta e grossa”, como ela se define. Fernanda tem, de fato, língua afiada. Não gosta de rapapés ou falsa modéstia. “Foi através do olhar dos outros que comecei a me achar bonita”, conta. E completa: “Vaidade é natural no ser humano, denota apreço por si mesmo”.

Entre as vaidades de Fernanda está o sucesso profissional. Ela tem orgulho – e muito – da sua trajetória: passarelas, RedeTV!, MTV e agora Globo, onde protagoniza a novela Bang-Bang, do escritor Mário Prata. Para cuidar do corpo, faz ioga.


E, quando está a fim, nada, surfa, anda de bicicleta, patins. Academia? Jamais. E dieta também não: “Meus pratos são de peão e faço questão de qualidade. Faço a dieta do comer bem”. Com 1,73 metro de altura, 54 quilos, 90 de busto, 62 de cintura e 90 de quadril não é difícil ignorar dilemas de pobres mortais. A guria pode.

Você se acha bonita?

Sim, me acho bonita.

E como se descobriu bonita?
Comecei a trabalhar como modelo aos 14 anos, meio que sem querer, fazendo umas fotos por curiosidade e entrando num concurso da M.Officer. Fui porque uma amiga me pediu companhia até a inscrição no shopping. Ela ficou de fora e eu fui chamada. Acabei na final do concurso e levei a capa da Capricho. Ninguém no colégio acreditou quando saiu a revista. A partir daí, comecei a chamar mais a atenção dos colegas. Foi pelo olhar dos outros que comecei a me achar bonita.

Obviamente, beleza põe mesa. Mas você tem a preocupação – preocupação, aliás, de quase toda modelo e ex-modelo – de não ser só “um rostinho bonito”?

Eu nunca tive essa encanação de ser “mais do que um rostinho bonito”. Sempre soube que sou um rostinho bonito, mas também sempre soube que sou inteligente o bastante para saber que rostinhos bonitos envelhecem na mesma proporção que outros mais belos nascem a cada dia. Acho esse clichê tão excludente quanto aqueles que associam a pobreza à marginalidade ou a falta de educação à falta de cultura e por aí vai. Acho tudo isso alienante.

Como você definiria vaidade?
O que é uma mulher vaidosa? Vaidade ou doença? Vaidade é natural no ser humano, denota apreço por si mesmo. É saudável! Agora, quando ela provoca na mulher um desejo de ser outra pessoa, eu acho doentio, perigoso e triste. Um verdadeiro pecado capital!

“ACHO QUE AO POSAR NUA TEMOS MAIS VONTADE DE IMORTALIZAR A JUVENTUDE E O VIÇO DO QUE SER OBJETO DE DESEJO INDISCRIMINADO"

”Por que você nunca topou fazer Playboy? Soube que você recebeu uma proposta recente, e soube também que era uma proposta irrecusável. Não te atrai mexer com a libido do país inteiro?
Não tenho problemas com o nu, aliás acho poético o encontro entre a luz e a pele. Nunca fiz Playboy porque não é uma revista de arte. Adoraria propor um ensaio bonito, sensível, feminino e que não tivesse a obrigação de ter tantas fotos de bunda ou de peitos. Sensualidade não está necessariamente naquilo que é revelado. Quanto à proposta foi muito boa, mas não era irrecusável.

Segundo teóricos, a mulher precisa da aprovação do macho para se sentir bonita. Seria uma forma de auto-afirmação da própria beleza?

Acho isso meio viagem. Nós mulheres somos erotizadas, gostamos de imagens, somos estetas, românticas e vaidosas. Acho que ao posar nua temos mais vontade de imortalizar a juventude e o viço do que ser objeto de desejo indiscriminado.

Você tem medo de envelhecer?
Medo é uma palavra que me incomoda, mas envelhecer não deve ser fácil. É duro observar que sua pele está perdendo o viço, que a agilidade e o reflexo já não são mais os mesmos e que, no entanto, a cabeça continua em perfeita condição. Mas isso acontece com todo mundo. É a natureza sempre soberana. Envelhecer também pode ser agradável, no entanto. Por isso, observo sempre as pessoas mais velhas e delas tiro grandes lições. A velhice deve ser bem aproveitada, rodeada de amigos, livros e, se possível, família e boas lembranças. Tenho certeza de que terei muito o que reviver fuçando minha galeria de bons momentos.

Qual é o seu maior medo?
Medo de perder as pessoas que amo, de ver uma guerra civil, de ver a natureza sendo destruída, de ficar doente, de não viver um grande sonho, de não dar tempo de alguma coisa.

Quem são as mulheres que você admira, fisicamente e intelectualmente? E homem? Quem é o seu tipo?
Fernanda Montenegro, Frida Kahlo, Angelina Jolie, Letícia Sabatella, minha mãe... Meu tipo de homem é aquele que não passa dos limites da sua vaidade: é limpo mas sem perfume. Discreto mas comunicativo. Careta mas sem ser chato. E bonito sem ser perfeito. É aquele que tem beleza e verdade no olhar. Voz bonita mas sem falar demais. Enfim, qualquer um que me surpreenda no detalhe e não no plano geral.

Você sairia com um homem feio? Tem algum ex-namorado que foge do padrão no seu currículo?

Sim, sairia e já saí com homens feios. Acredito que nós mulheres aceitamos e às vezes até gostamos de defeitinhos nos homens. Sei lá, rola uma espécie de afeto exacerbado que inaugura um outro olhar. Vejo, por exemplo, homens preocupados com a calvície. Acho um charme homens com entradas ou calvos. Pera aí, não descarto os cabeludos! O que importa é o intangível, o recheio e o gingado. Sacou? Mulher também gosta de ritmo!

Você gosta de ser famosa? Sente prazer em ser reconhecida?
Gosto de ser reconhecida pelo que sou e não por uma invenção alheia. Por meu trabalho, pelo qual me empenho tanto, pelo que penso e por todas as vezes que desisto de pensar e me lanço na pura e cristalina emoção. Gosto de ser reconhecida pelo que falo, quando falo, e não pelo que dizem que falei. Gosto de ser famosa nos dias em que estou expansiva. Não gosto de ser quando preciso ficar sozinha. Sei também que gostar ou não gostar não muda nada, é tudo retórica. Lembro sempre do meu pai me dizendo: se te dão um limão, faça uma limonada. É assim que aprendo todos os dias a gostar de tudo a que me dedico.

O que você sente ao se ver, por exemplo, na Caras?
Nada.

Fama está entre as suas vaidades?
Desse mal eu não morro.

E inteligência? Você é intelectualmente vaidosa?
Não sou uma guria intelectualizada, mas sinto orgulho da minha inteligência. Me orgulho da minha trajetória e até mesmo quando estou p... da vida com coisas que me rodeiam, como paparazzi, gosto de saber que eu viveria tudo outra vez.



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