A
decisão de viver fora do Brasil teve a ver com
o desejo de ter uma vida longe dos olhares alheios?
Sim. Isso foi fundamental para o crescimento de nós
três [ela, o marido e o filho, Kim, de 23
anos]. Decidimos nos mudar para estudar fora, abrir
novos horizontes, ampliar a perspectiva e poder viver
essas coisas tendo uma vida anônima onde você
pode observar em vez de ser observado.
A escolha de criar seu filho em Los Angeles
teve a ver com o tipo de educação que
quis dar a ele?
Sem dúvida. No Brasil, o Kim ia acabar se tornando
uma celebridade mesmo sem ter feito nada e isso não
é interessante. Ele acabaria aprendendo a viver
numa artificialidade, ia conhecer uma vida não
verdadeira. Desde cedo percebi que a fama não
é a melhor coisa para se buscar, e sim o trabalho.
A fama pode até vir em decorrência do trabalho,
do contrário, é fugaz e perigoso.
Seu casamento com o Ricelli tem mais de 20 anos,
coisa cada vez mais rara hoje em dia. Qual é
a tônica desse relacionamento?
Tudo é resultado de uma busca de valores. Acredito
que temos uma passagem muito rápida por este
planeta e escolhi usufruir o meu tempo por aqui me guiando
por alguns valores que não têm a ver com
a sociedade, mas com uma verdade minha. O que enfeia
as pessoas e faz com que elas façam besteiras
são os maus valores. E calhou de tanto eu como
o Ri e o Kim pensarmos assim.
Você sempre foi bonita, uma espécie
de musa no Brasil, e parece estar cada vez mais jovem.
Que peso a vaidade tem na sua vida?
Vaidade é uma coisa gostosa e até essencial,
mas eu não sou obcecada. A beleza é um
todo e vem principalmente de dentro pra fora. Não
é que eu não dou valor à beleza,
mas dou a ela a dimensão que deve ter, nem mais
nem menos. Outro dia li uma entrevista que dei aos 20
e poucos anos e o jornalista me perguntou se me achava
bonita. Disse: “Não sou, estou ficando”.
E acho que foi isso que aconteceu, naturalmente, sem
forçar a natureza das coisas. Uma pessoa que
cuida só da camada de fora é bonita, mas
não bela. Diferente de quem cuida das duas camadas,
que são as pessoas que iluminam os ambientes.
Como você aprendeu a cultivar essa beleza
ao longo da vida?
Fazendo tudo o que é natural pra mim. Nunca fiz
dieta, por exemplo. Como tudo o que me dá vontade,
respeito profundamente meus desejos. O segredo? Ouvir
o corpo. O grande problema é que hoje está
todo mundo tão envolvido com esse monte de barulhos
externos que mal consegue ouvir o que o corpo está
dizendo ou pedindo. Como chocolate quando o corpo pede,
bebo água quando o corpo pede, tomo um bom vinho
quando o corpo pede. Sem agressão. Sem exagero,
naturalmente.
E exercícios físicos?
Pratico a tradicional hatha ioga há uns 10 anos.
Faço musculação e, quando estou
em São Paulo, tenho um treinador que me acompanha
há anos. Faço tudo isso por prazer, por
isso gosto de dizer que o segredo é descobrir
quais são as coisas que você
ama porque aí não tem peso.
Como é seu banheiro? Tem
mil e um cremes ou só coisas básicas?
Tem épocas que eu não tô
nem aí, só uso o básico, e passo
meses sem comprar nada. E tem épocas que me bate
aqueles cinco minutos e compro um monte de creminhos,
sapatos de que nem preciso, um vestido que quero “urgentemente”
e coisas assim. Acho que toda mulher é meio desbalanceada.
E acho fundamental ver isso com humor pois é
justamente esse desbalanço que faz da gente esses
seres interessantíssimos. O feminino é
uma permanente contradição.
Você está com 51 anos, é
bonita, famosa e tinha tudo para levar um estilo de
vida mais mainstream e menos outside. Por que optou
pelo segundo?
Não foi uma opção, a vida foi me
levando a isso. As pressões sociais são
imensas e as confusões de valores, enormes. Tudo
é excesso hoje em dia: as propagandas, as dietas,
as modas. Como manter a delicadeza no meio de tanta
grosseria? É aí que você tem que
ter a sua sabedoria, criar um mundo seu, das coisas
que você realmente quer. É simples, mas
difícil como ouvir um riacho no meio de uma estrada.
“ENVELHECER BEM DEPENDE DA SUA RELAÇÃO
COM O TEMPO E, PARA MIM, O TEMPO É BEM-VINDO,
É O MESTRE, É QUEM TE ENSINA, QUEM CONTA
AS HISTÓRIAS”
Toparia um novo convite da Playboy para posar
nua?
Acho a nudez linda, mas não sei se toparia de
novo. Fiz a Playboy uma vez e foi maravilhoso
por causa daquele momento de vida. Tinha acabado de
decidir morar em Los Angeles, era um tempo de mudanças
boas. As fotos foram feitas no Caribe com um fotógrafo
muito legal, que me deixou totalmente à vontade.
Houve uma magia, foi uma ótima experiência.
Tem que ser assim, se não, não tem por
quê.
Como está sendo ver a Bruna envelhecer?
Olho-me no espelho e penso: “Eis o que estou ficando”.
Vejo isso com prazer, o prazer de estar se construindo.
Envelhecer bem depende da sua relação
com o tempo e, para mim, o tempo é bem-vindo,
é o grande mestre, é quem te ensina, quem
conta as histórias, quem te faz compreender o
que você não compreendia. O passar do tempo
me elucida. Isso não quer dizer que você
não possa – e não deva – fazer
tudo que estiver ao seu alcance para se cuidar. Mas
aceitar o processo natural da vida sem paranóia
é fundamental para envelhecer com beleza.
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