EDIÇÃO # 49
novembro 2005
Juliana Mota
Ducha Lopes
Patrícia Palumbo

Dani Bianchi

Jéssica de Silva
 
     
 


Juliana Mota, 28 anos, é jornalista e apresenta aqui suas novas descobertas culturais e gastronômicas: dois recém-inaugurados endereços cariocas e clássicos do cinema italiano e da literatura


Cena do filme As Amigas: trocando figurinhas em 1955

MUDOU A ÉPOCA


A relação entre amigas filmada há 50 anos sob direção do italiano Michelangelo Antonioni poderia se passar hoje em dia, e ser a nossa vida real

Outro dia comprei o DVD As Amigas. Foi uma compra de impulso, um pouco por conta de uma antiga simpatia pelo diretor, o mesmo de A Noite, de 1960, que adoro, e um pouco porque gostei do título e achei a capa bonita, assumo. Mas valeu: amei! Filmado em 1955, passa-se na cidade de Turim, na Itália, e trata de um grupo de cinco amigas, todas lindas e superelegantes, que vivem às voltas com seus encontros e desencontros amorosos. Por meio dos desejos e angústias das personagens, Antonioni faz uma instigante reflexão sobre a sociedade da época, revelando preconceitos, códigos e dilemas. Com belíssima estética em preto-e-branco, o que mais me encantou foi o fato de o filme ser superatual, com várias situações que, de uma maneira mais ou menos profunda, nós, mulheres do século 21, já vivemos com amigas, amores...

Vai lá:
As Amigas (Le Amiche – 1955), dir. Michelangelo Antonioni, R$ 36,90, www.fnac.com.br

Ju Mota no Miam Miam: uma de suas mais novas descobertas gastronômicas

Ju Mota veste: vestido Adriana Barra para Clube Chocolate; colar Lídice Caldas

NOVOS SABORES

Perambulando pelas ruas do Rio, ela conheceu dois bem guardados segredos: o bar Da Graça e o restaurante Miam Miam. Agora, eles são paradas obrigatórias em seu roteiro noturno

Desde a primeira vez que pisei nesses dois lugares, soube que viraria habituée. O bar Da Graça fica numa bucólica esquina do Horto, com vista para o Jardim Botânico. Definitivamente cheio de graça, o lugar é perfeito para uma caipirinha de fim de tarde ou um drinque tranqüilo no fim de semana. O bolinho de arroz é uma delícia. A decoração é barroca com charme kitsch. O balcão da antiga lanchonete que antes funcionava ali foi mantido e, atrás dele, uma coloridíssima parede forrada com tecidos estampados alegra os convivas. Para abençoar, relicários, santinhos e imagens religiosas. Na mesinha ao lado da porta há um lugar estratégico de onde se vê o Cristo Redentor. O Miam Miam é puro aconchego. Batizado com a onomatopéia francesa (o nosso nham nham), aposta em comida simples, mas muito gostosa. Como comer na casa da vovó, sabe? A moqueca com arroz de coco da chef Roberta Ciasca é imperdível. É delicioso sentar no lounge e prosear a noite toda, num clima “lá em casa” com ótima trilha, assinada por DJs como Rick Novaes e Nado Leal. Instalado numa casa do fim do século 19, o restaurante é decorado com móveis retrôs, à venda para quem se apaixonar.

Vai lá: Da Graça, (21) 2249-5484, r. Pacheco Leão, 780. Dica: porção com cinco bolinhos de arroz (R$ 10). Miam Miam, (21) 2275-7855, r. General Goes Monteiro, 34. Dica: moqueca de peixe e camarão ao molho suave de creme com arroz de coco queimado (R$ 27,30)
 
CLÁSSICO DOS 80

A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, caiu nas mãos dela por acaso.
E agora anda falando sobre os acasos da vida

Quase todos os meus amigos de trinta e tantos já leram. E numa noite dessas fui dormir na casa de minha mãe e, ao deitar, no quarto do meu irmão, de vinte e poucos, vi o livro ali, na mesa-de-cabeceira. Peguei para dar uma olhada. Pronto, não consegui largar. Trata-se de uma edição antiga, de 1986, que depois Bernardo (meu irmão) me contou que garimpou da biblioteca meio esquecida de nossa mãe. Praga é o cenário principal dos encontros e desencontros dos quatro personagens centrais: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. Mas o que mais vem me encantando é a discussão, sempre nas entrelinhas, entre o peso e a leveza, uma adorável contradição com a qual nos deparamos a todo momento. Adoro também a idéia das coincidências, dos poderosos acasos que a vida nos oferece.
Aliás, esse livro cair em minhas mãos foi mais um desses: o vizinho estava em obras e meu apartamento ficou sem água quente, e, por acaso, fazia muito frio e fui tomar banho na casa de minha mãe, e, por acaso, acabei dormindo por lá, no quarto de meu irmão, que, por acaso, estava viajando... e o livro ali, por acaso, na mesinha... Aí vai um trecho que ilustra bem essa história: “Nossa vida quotidiana é bombardeada de acasos, mais exatamente de encontros fortuitos entre as pessoas e os acontecimentos – aquilo que chamamos de coincidências. Existe co-incidência quando dois acontecimentos inesperados acontecem ao mesmo tempo, quando eles se encontram”.

Vai lá:
A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, editora Companhia das Letras, 352 págs., R$ 45,50, www.saraiva.com.br