Em alguns dos cinco casamentos o senhor conseguiu pôr em prática a liberdade de amar que prega?
Nos dois últimos, mais elas do que eu. Eu ficava triste porque às vezes gostaria de estar com ela, e ela estava com outro. Mas não sentia raiva.

Mesmo assim continuava tendo certeza dessa liberdade?
Sim, acho que sim. Prefiro isso ao sistema tradicional. Experimentei os dois. No primeiro casamento senti na pele todas as restrições da velha família.

O senhor diria que se as pessoas gozassem mais, ou melhor, viveríamos em um mundo menos violento.
Eu gosto muito da noção “paz e amor” mas desde que a humanidade é humanidade sempre teve alguém dizendo que deveríamos nos amar e nunca conseguimos. Jesus Cristo morreu para ensinar isso e ninguém é tão responsável por mais torturas e mortes do que ele.

O que impede que nos amemos?
Primeiro: as diferenças sociais. Isso gera revolta, ressentimento, depressão. A nossa trama social é envenenada. Preciso ter certeza de que você não vai me machucar, somos extremamente defensivos, desconfiados, ansiosos e medrosos. A segunda fonte de separação nas pessoas vem da sua infância. Qual é a palavra que criança mais ouve? “Não”. Quase tudo que é espontâneo e livre não pode. Esses dois fatores tornam o homem desconfiado e incapaz de amar. Está esperando a hora que o outro vai machucá-lo. Esse é o contexto que torna o amor tão difícil.

E qual é a grande solução?
O Oriente explica mais ou menos: se tudo é péssimo, fique alerta, consciente. Não entre de cabeça dizendo que agora está amando porque vai dar com a cara. Não arme, mas também não desarme. Tudo isso é o normal. No final, a gente volta tudo: por que amar é tão difícil?

Leia na Tpm # 48: Gaiarsa fala sobre monogamia, o médico austríaco Wilhelm Reich, explica o que é repressão maternal e reflete sobre o tema central desta edição: consumo