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“A PIOR COISA QUE O CRISTIANISMO FEZ POR MIM FOI CONDENAR
A MASTURBAÇÃO”
Com quantos anos o senhor se casou pela primeira vez?
Com 27. Meu primeiro casamento durou 25 anos e me deu três
filhos. O casamento não foi bom. Aliás, todos
os meus casamentos duraram de metade a dois terços a
mais do que deveriam ter durado, até o mais curto deles,
que durou três anos. Separar é muito difícil.
Mas aconteceu o fato de que eu casei e seis meses depois não
tinha mais nada de cristianismo na minha cabeça. Meu
interesse então se limitava a Jesus Cristo.
E a ruptura com a religião se deu por quê?
Eu já estava começando o consultório, como
psicoterapeuta, conhecendo a tristeza do mundo. Até então,
a família para mim era linda. Mas no consultório
percebi que não era nada disso. Comecei a entrar na vida
das pessoas e conhecer a realidade delas, as dificuldades, os
sofrimentos, as angústias, o outro lado da família.
Na mesma época meu casamento começou a encrespar.
Por quê?
Por tudo.Tinha brigas homéricas com a minha mulher, mas
só na minha cabeça. Nunca brigamos de verdade.
A nossa briga era inglesa, só de caras. E eu passava
o tempo todo da minha folga pensando no meu casamento, no porquê
de não estar dando certo. Depois de anos percebi que
não estava discutindo o meu casamento, mas o casamento.
Eu saía de casa de bico por causa dela, chegava ao consultório
e a primeira coisa que eu ouvia do paciente era que ele não
agüentava mais a mulher dele. Então comecei a perceber
que o casamento é isso, e não o meu que é
uma tragédia. Infelizmente, ele era normal.
Sobre o que o senhor falava em seu programa [Gaiarsa
tinha um programa diário na televisão, de seis
minutos, em rede nacional]?
Era muito variado. Dava aulas, explicava o Reich, respiração,
mostrava obras de arte interpretadas. Freqüentemente eles
me empurravam para responder telefonemas e era por isso que
as pessoas mais se interessavam. Acabei me cansando porque,
de cada 100 ligações, 90 eram de mulheres. Trinta
me perguntavam o que elas faziam com o casamento. Sessenta queriam
saber o que fazer com o filho. Todas absolutamente iguais.
Era um programa de vanguarda?
Muito. Metade das mulheres da época me amava, e metade
me odiava. Lembro que depois da estréia eu cheguei em
casa e tocou o telefone. Atendi e ouvi: “Gaiarsa? Você
é um filho-da-puta!”. Fiquei em choque. Tocou de
novo. Era uma outra voz: “Gaiarsa, você é
sensacional!”. E foi assim para o resto da vida: amado
e odiado. |
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