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Você já gozou hoje? E, mais importante ainda, foi
bom?
Não há nada de estranho, engraçado ou sujo
com essas perguntas. Para o psicanalista paulista José
Angelo Gaiarsa são indagações fundamentais.
Seguidor das idéias do médico austríaco
Wilhelm Reich (1897-1957), Gaiarsa acredita que viveríamos
em um mundo mais justo e livre se fizéssemos mais amor.
Ou, colocado de outra forma, se nossas relações
sexuais fossem mais intensamente exploradas e menos reprimidas.
E ele diz isso bem antes dos Beatles entoarem “All We
Need Is Love”. Ele diz isso, aliás, há exatos
50 anos, quando, aos 26 anos, concluiu a faculdade de medicina
da USP e se deixou seduzir por Wilhelm Reich. Foi então
que abandonou a formação altamente católica
e começou a questionar e a investigar as relações
humanas.
Agente das mudanças que gostaria de promover no mundo,
teve cinco mulheres e, com duas delas, conseguiu aplicar sua
teoria de amor livre. Funcionou. Mais para elas do que para
ele.
Durante dez anos, de 1983 a 1993, suas idéias foram ao
ar, diariamente, pela TV Bandeirantes. Eram seis minutos de
papo com Gaiarsa, que respondia, ao vivo, a dúvidas de
espectadores. Por sua franqueza, foi amado e odiado. Espécie
de Alfred Kinsey (o biólogo e sociólogo que pesquisou
tendências e práticas sexuais dos americanos na
década de 40) brasileiro, autoditada quando o assunto
é tudo o que tange a relações humanas e
sexo, e defensor de formas mais livres de amor, já foi
chamado de terrorista social.
Como tudo o que repele também intriga em igual proporção,
é autor consagrado, já publicou 30 livros e passou
mais de 60 mil horas em seu consultório ouvindo discursos
inconformados sobre o que chama de lado podre da família.
Com base nessas informações, foi reescrevendo
seu código de ética e moral.
Invadimos o pequeno apartamento de Gaiarsa no fim da tarde de
uma quarta-feira de setembro. Íamos atrás de seus
conhecimentos no que toca o amor, a relação entre
homens e mulheres, o gozo, a monogamia e a felicidade –
questões que insistem em nos cutucar em doses diárias.
E, sobre tudo isso, ele começou a falar no mesmo instante
em que nos deixou entrar.
Ainda de pé, no meio da sala que dá vista para
a Vila Madalena, bairro descolado de São Paulo, ficamos,
por quase 15 minutos, sem conseguir fazer com que Gaiarsa interrompesse
o raciocínio. Quando finalmente nos mudamos para o sofá,
ali passamos mais três horas.
Aos 85, o psicanalista, quatro filhos, sete netos, está
sozinho. Mas garante não se arrepender da vida que levou.
Tudo porque, assim como Nietzsche, acreditou que a maior inimiga
da verdade não é a mentira, mas a convicção.
Com isso em mente, continua a nos estudar. |
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