Continuei minhas andanças. Desci a Consolação, já meio desconsolada, e tomei o caminho de casa. E finalmente tive minha primeira reação! Um gay me paquerou. Me olhou de cima a baixo e gostou. Minha auto-estima fortificou-se um pouquinho. Continuei andando e pensando, meu Deus, por que eu estou deprimida se isso aqui é só um personagem? Mas o fato é que é muito difícil ser um personagem no meio de pessoas reais. Resolvi pegar um táxi e ver se o taxista falava alguma coisa. Ele deu um pulo quando ouviu a minha voz. Fingi que nada acontecia. Deixei-o pensando que eu era um rapaz na puberdade. O pai da minha filha veio trazê-la em casa, dormindo. Quando me viu, passou mal, disse que estava com o estômago revirado. Perguntou onde estava a babá, a Catarina não podia me ver daquele jeito. A babá chegou e eu me mandei, antes que a minha filha ficasse confusa. Liguei para um amigo, estava cansada de peregrinar sozinha com meus pêlos de dromedário. Ele topou sair. Quando me viu, engasgou. As coisas tinham acabado de ficar mais bizarras: lá estava eu, de barba, depois de um dia inteiro sendo ignorada, conversando com meu amigo como se estivesse tudo normal e uma faixa não estivesse amassando meus peitos.

Não agüento mais!

Fomos a um restaurante japonês na Liberdade, enchemos a cara de saquê, eu me preparando para a parte mais difícil da tarefa: a balada. Fomos ao Clube Vegas, na Augusta. Eu já estava bêbado. Enfiei o boné e reassumi o Moreno, que no escuro ficava ainda mais convincente. Vi pessoas conhecidas, mas nem elas detiveram o olhar sobre mim. Voltei a não existir. Compramos umas cervejas, encostamos em um canto. Amigos dele chegavam, ele me apresentava, eu apenas acenava a cabeça. Não agüentava mais. Tudo que eu queria era voltar a ser mulher, voltar a existir, passar rímel alongador de cílios e usar a minha bota prateada com salto agulha e minhas unhas vermelhas. Eu não agüentava mais. Foram mais de 12 horas naqueles trajes, estava quente, não podia tirar o casaco porque estragaria o disfarce. As faixas na barriga e nos peitos não ajudavam muito, eu suava, a barba coçava, o saco coçava. Mais uma cerveja e nada. Até que tive um rompante, fui até o banheiro, arranquei o casaco, a camiseta, as faixas, o que consegui tirar da barba e da sobrancelha e enfiei tudo na mochila. A parte de baixo ainda era a do Moreno – com exceção do pênis-saco, que também arranquei no meu chilique feminino, junto com a inveja do Freud – mas, rapaz, me senti bem melhor. Ouvi comentários na fila “é homem ou mulher?”, sorri, empinei o peito e o nariz e voltei a ser eu. Não estou preparada para ser homem.