 |
|
Como
mulher alta, voluptuosa, digamos assim, e com tanta
tatuagem quanto um passaporte de rockstar, estou
acostumada a chamar atenção, para
o bem ou para o mal, e, mesmo fora dos padrões,
ainda assim sou mulher. O Moreno não. O Moreno
era invisível. Os homens não olhavam
porque, porra, eu era um homem. O radar dos homens
só pisca quando envolve peito e bunda. E
nenhuma mulher me olhava porque eu era um cara de
barba rala, corcunda, com barriga saliente e boné
enterrado nos olhos, nada atraente. Caminhei do
prédio da Gazeta até o Conjunto Nacional
– isso dá boa parte da avenida Paulista
– sem que nenhuma alma tomasse conhecimento
da minha existência. Ninguém olhava
duas vezes. Aliás, ninguém olhava
nem uma vez.
Resolvi entrar em um shopping. Lá havia banheiros,
filas, restaurantes. Lá alguém teria
alguma reação que não fosse
a total indiferença. Mas não. Comprei
sorvete, sujei a barba. Nada. Entrei na fila do
cinema, comprei ingresso, nada. Vi o filme, saí,
NADA. Entrei no banheiro, saí, NADA! Os caras,
cada um ocupado com seu membro, nem me notaram.
Então comecei a entender que não era
um problema comigo. Simplesmente é assim
que os homens ordinários se sentem. Invisíveis.
Ignorados. Inexistentes. Péssimos. Só
que, claro, eles são machos e não
ficam choramingando. Sem contar que estão
acostumados com isso desde sempre, enquanto eu estou
acostumada a ser mulher, ainda que esquisita, desde
sempre. Não, meninas, ser homem não
é tão fácil quanto nós
todas imaginamos. Menos ainda para uma mulher. |
|
 |
|
|
|
|