Quando me falaram em passar um dia vestida de homem, vivendo como homem e tentando pensar como homem, achei que seria uma grande diversão. Sempre tive uma certa vontade de ser homem, apesar de ser extremamente mulherzinha e vaidosa. Achei que seria muito esclarecedor, que sacaria a reação do mundo com os homens. Porque é tudo diferente, todos os estímulos são diferentes. Achei que seria uma grande diversão antropológica, andar por aí barbuda enganando todo mundo. Realmente, eu enganei todo mundo. Menos a mim mesma.
Já vi que seria difícil quando começou o processo de esconder as curvas. E eu tenho muitas. Esmagamos meus peitos 46 com muitas faixas desconfortáveis, fizemos uma barriga com um boá de veludo, colamos um falso pênis-saco na minha calcinha – rosa, pra lembrar quem eu era quando fosse ao banheiro masculino – que coçava como eu imagino que devem coçar os verdadeiros. Vesti uma calça larga pra esconder a bunda e sentei na cadeirinha da maquiadora, enquanto uma das produtoras levava a minha filha na escolinha para poupá-la de ver sua mãe de... barba. Uma experiência que eu não gostaria de voltar a ter. Primeiro, porque não era barba. Eram pêlos de dromedário. E pinicava muito, e era quente, e coçava, e com os mesmos pêlos ela fez umas sobrancelhas de homem de Neandertal meio grudadas. Quando me olhei no espelho, fiquei paralisada. Por dentro, era eu. Mas, por fora, eu tinha virado um homem. Um homem barbudo, corcunda e meio jacu. Meu Deus. Nunca pensei que eu viraria esse tipo de homem. Sei lá, sempre achei que, se eu fosse homem, seria o Mick Jagger. Ou o Perry Farrell. Não que os dois tenham alguma coisa a ver, mas enfim.


Seguimos para a Paulista para tirar umas fotos, e aquele cara estranho virou o centro das atenções. Eu era um cara estranho, muito estranho, mas ninguém imaginaria que na verdade era uma mulher de barba – que espécie de mulher sai de barba na rua, afinal de contas? Eu ainda estava desconfortável, com um monte de gente que sabia quem eu era em volta, mesmo que me chamassem de Moreno. Por enquanto, eu ainda era a Clarah. Só quando elas, a fotógrafa e as produtoras, se foram, que eu fiquei sozinha com minha nova persona. E fui almoçar. Foi uma tarefa difícil comer com aquele monte de pêlo colado na minha cara, e eles ainda ficavam caindo no meu prato, o que era extremamente desagradável. Mas na hora de pedir a conta foi que tudo começou. “Traz a conta pra esse moço aqui?”, disse a garçonete. Moço! Era eu. Paguei, percebendo que não podia abrir a boca senão eu passava de um moço estranho para uma atração de circo, e resolvi caminhar pela Paulista para sacar a reação das pessoas a mim, Moreno Gomes. Que era... Nenhuma. Eu simplesmente havia sumido do mapa. Saído do radar tanto de homens quanto de mulheres.