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Todo
mundo quer ver sangue; todo mundo adora um escândalo.
Dizer que as pessoas ficam indignadas com a crise
política é um pouco otimista, infelizmente.
Muitos ficam tão horrorizados com as notícias
de Brasília quanto com a baixaria na TV de
modo geral. Talvez peçam “mais programação
cultural” ao serem entrevistados por um pesquisador,
enquanto dão ibope para os piores lixos –
para se “indignarem”, talvez, ou apenas
para se divertir.
De modo semelhante, quem sai por aí dizendo
“eu sabia, político nenhum presta,
são todos uns salafrários e a gente
é quem paga o salário deles”
tem grandes chances de ser quem vota nos piores.
Nos que prometem absurdos, se envolvem em um rolo
mal explicado atrás do outro ou são
orgulhosamente “espertos” na administração
de seus negócios e mandatos. Talvez os mais
revoltados sejam os que mais aplaudem o Roberto
Jefferson – o que “rouba, mas fala”,
como a Folha teme que ele venha a ser conhecido.
A crise deflagrada nas últimas semanas atinge
o fígado do PT e do governo do PT. Mas joga
sombras sobre vários outros partidos; é
impressionante como não se anuncia “o
fim” deles (PTB, PL, PP...). Por quê?
Por que há muito tempo não se pode
apontá-los como instituições
para valer, com um programa, princípios,
ideologia e base popular? O fato de não serem
tidos como “partidos de verdade” (em
vez de aglomerados disformes, agrupados em torno
de três ou quatro caciques) os exime de maiores
cobranças?
Não acho que dizer “todo mundo faz”
possa ser usado como argumento para justificar práticas
escusas. Mas não posso aceitar a cara de
espanto de quem quer nos fazer crer que nunca usou
expediente parecido, idêntico ou pior. De
quem quer nos convencer de que nunca imaginou que
parlamentares pudessem pedir ou aceitar dinheiro
para decidir votar contra ou a favor do governo,
ou que houvesse um caixa dois em campanhas eleitorais.
O PT, inegavelmente, deu motivos para ser levado
ao cadafalso. Mas em nenhum outro caso os erros
de um integrante do partido – prefeito, governador,
deputado, senador, “dono” – levaram
ao questionamento do partido todo. Não vi
comentários sobre “o ocaso do PFL”
quando ACM renunciou ao mandato depois de ter fraudado
uma votação no Senado... Como o PT
defende a ética, deve deixar de existir quando
integrantes da legenda agem de maneira desonesta?
Não! Que tal exigir a famosa coerência
e a aplicação de mecanismos rigorosos
de punição para quem descumpriu o
estatuto do partido (e a lei!)? Se, ao fim do processo,
nada for feito nesse sentido, aí, sim, se
pode dizer “o PT não cumpre o que diz”.
Anunciar, pedir ou comemorar o fim do PT é
um absurdo. Partidos, empresas, ONGs, igrejas, movimentos
sociais, todos estão sujeitos aos erros e
delírios humanos. Decretar a inviabilidade
de uma instituição por causa das faltas
dos seus membros é incorreto e injusto. Nessa
linha de raciocínio que repilo (ops), é
fácil anunciar o fim dos partidos políticos,
da esquerda, do Parlamento, da democracia, da raça
humana... Dizer: “Não deu certo, extingue”.
Calma lá! Vamos continuar tentando fazer
funcionar, seguindo o caminho difícil das
regras, do debate, sabendo que sempre vai haver
quem prefira o jeito mais fácil de resolver
as coisas – na base do dinheiro, da chantagem
ou da porrada. |
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