Você
sempre questionou a ética e a moral. Como você
passa o recado em suas criações?
Eu acho que o pior dos males é a hipocrisia. Tudo em
mim e nas peças que crio é verdadeiro. Se eu
tô no escritório e tenho vontade de descer na
loja descalça, eu vou. É a minha casinha, entendeu?
Eu quero que as pessoas que estão ali comprando a minha
roupa se sintam comprando uma pessoa de verdade. Elas estão
comprando uma pessoa que anda descalça, que corta alface.
Mas tem o outro lado desse negócio. Uma vez perguntaram
na faculdade: “Mas você gosta das peruas?”.
Escuta, tem coisa mais autêntica do que uma perua? Perua
é o máximo. Ela acorda de pink, com um cabelo
monumental, com um poodle no colo, e sai pela rua daquele
jeito. Todo mundo usa calça jeans e camiseta e fica
apontando para a perua. O raciocínio é o seguinte:
o que será que a perua está despertando em você
que faz com que você se manifeste contra? As pessoas
são diferentes, e elas têm que ser assim. A diferença
é tudo na vida.
Por essa lógica, deveríamos nos preocupar
em vestir a atitude certa, e não a roupa correta. É
isso?
A gente nasceu pelado, e com uma missão na vida. Usar
a roupa certa não vai fazer você cumprir essa
missão. Aliás, não existe isso de roupa
certa. A gente só precisa um do outro, ser feliz, se
relacionar. Dinheiro é muito bom para te proporcionar
coisas boas. Dinheiro compra uma X5 com alto-falante, como
a que eu vi na rua outro dia, xingando o carro da frente de
pobre e palmeirense? Compra. Mas compra educação?
Compra brio? Compra inteligência? Compra humildade?
Compra pureza? Compra consistência? Não, não
compra. Aquela pessoa dentro da X5 podia estar vestindo Chanel
e ainda assim ela ia ser cafona, medíocre.
Por que a sua roupa é tão cara?
Poderia fazer minha roupa ser comercial, fazer em série,
distribuir no Brasil inteiro, usar aviamentos nacionais, fazer
meus quadros com três cores em vez de trinta... Isso
faria minhas peças ficarem mais baratas. Ou fazer pouca
quantidade, vender só na minha loja, usar aviamentos
importados, não ter preço de atacado... e isso
encarece. Porque cada peça que crio é, para
mim, uma obra de arte. Cada uma delas.
Você não faz liquidação?
Acho que liquidação é uma falta de respeito.
Você vem aqui, compra um vestido de 1.500 reais e daqui
a dois meses ele custa 750. Não é legal.
Dentro do seu guarda-roupa tem o quê?
Tem muita coisa de brechó. Só ultimamente que
eu comecei a digerir a moda de uma outra maneira e entendi
que tem certas coisas que eu realmente gostaria de ter. Por
exemplo, um sapato Marc Jacobs. Eu também gosto muito
dos estilistas da minha geração. Eu tenho roupa
da Raia de Goeye, da Isabela Capeto, que eu adoro.
Você acha que alguém pode ser mais feliz
porque comprou um vestido da Adriana Barra?
Não adianta comprar uma roupa nova para disfarçar
certas coisas e sentimentos, porque uma hora pode ser que
você tenha que dar de cara com eles. Mas tem coisas
que dá para você resolver com um vestido que
te faz bem, isso eu acho completamente viável.
Você define uma pessoa pela roupa?
Nem que eu quisesse. Porque as pessoas são feitas de
outras coisas.
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# 43, já nas bancas.
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