Onde você estudou?
Eu estudei no colégio São Luís, em São Paulo. Era a melhor aluna, a mais prendada, certinha, educadíssima, o orgulho dos meus pais. Mas a verdade é que eu era terrível, e ninguém sabia disso.

Como assim?
Até os 13 anos eu era esse exemplo de menina. Mas aí, quando a adolescência chegou, tudo mudou. Eu virei outra pessoa. Estava exausta de ter que servir de exemplo para os outros, de ter a letra mais bonita da classe, as melhores notas... Com 13 anos eu senti vontade de explodir, de tirar toda essa caretice de dentro de mim.

Mas o que desencadeou essa mudança?

Quando eu tinha 13 anos fomos passar um ano em Goiânia, onde meu pai foi trabalhar. O colégio era bem mais fraco do que o São Luís e eu saquei que não precisava estudar para ir bem. A cidade tinha sol 24 horas por dia, aquele calor, piscina... Meus amigos do prédio eram mais velhos, o povo de Goiânia é muito mais simpático, extrovertido e engraçado do que o que eu conhecia em São Paulo. Isso me abriu a cabeça. Virei outra pessoa. Ou melhor, virei o que eu era mesmo.

E seus pais?
Meus pais e meu irmão enlouqueceram. Mas acharam que era rebeldia de adolescente. [Adriana tem um irmão, Francisco, dois anos mais novo.]

E não era apenas rebeldia?
Não era. Era eu. Foi nessa época que eu senti o que era ser eu de verdade.

Essa vontade de quebrar as regras chegou às drogas?
Eu sempre fui muito aberta a esse tipo de coisa, mas sempre entendi que não precisava me exibir e fazer parte do grupo para ser eu mesma. E também nunca precisei de estímulo químico para ver uma realidade que aparentemente não estava ali.

Que tipo de realidade é essa?
As pessoas todas iguais nos lugares à noite, por exemplo. As mulheres posando, rindo forçado, ninguém se diverte de verdade... Aquilo me dava agonia. Eu tinha necessidade de me divertir, dançar, sorrir, brincar, sei lá. Por essa época, vinte e poucos anos, comecei a viajar pelo mundo. Via o comportamento das outras pessoas, culturas mais livres, e pirava. A gente tem aquele conceito de que o brasileiro é superlivre. Brasil, terra do samba, do Carnaval, do futebol. Não é isso. As pessoas são superquadradas.

Mas você não acha que isso é uma manifestação da elite brasileira e que não se aplica ao povão?
Acho, totalmente acho. Parece que ninguém se diverte. Com 18 anos, eu ia para um bar cheio de meninas e meninos que passavam a noite fazendo pose. Olhava aquela mesmice e pensava: “Que gente chata. Quero matar todos eles”. Eu era louca de verdade [risos]. Aí, de repente, eu subia em cima do balcão e começava a dançar. Ou, se a casa tinha piscina, eu me jogava de roupa na piscina. Aliás, isso virou um ritual: tinha piscina, eu pulava. Carpe diem, sabe? Eu achava que essa época boa, de juventude e loucuras, ia passar e eu precisava aproveitar. As pessoas olhavam e falavam: “Essa menina é maluca, tá drogada”. [Risos.]

Você acha que nossa elite é travada?
Eu acho que o ser humano é travado. O que acontece dentro de um elevador, por exemplo. Tem situação mais chata? Ninguém se fala, ninguém nem se olha. É óbvio que as pessoas com menos poder de compra são mais sinceras com elas mesmas. Caso contrário, como se vive num país tão miserável? Ou você aprende a tirar felicidade das pequenas coisas da vida ou enlouquece. E, fala sério, o que é felicidade senão as pequenas coisas? Mas pra gente, os ricos, isso fica mais difícil de sacar. Só que eu ainda acho que as pessoas não se respeitam, não têm coragem de ser elas mesmas.

Essa mesma elite que um dia te entediou é hoje sua clientela.

Exatamente, e isso me deixa emocionada. Ouço por aí as pessoas dizendo: “Estou vestindo Adriana Barra”. Elas vestem meu nome, eu virei uma coisa etérea, estampada, divertida. É como se eu tivesse encontrado uma forma mais civilizada de deixar o ambiente menos careta. Não preciso mais subir no balcão. [Risos.]